“chove

é o céu que está chorando
Agô
vejam vocês
eles vão nos iludir mais uma vez
e é tanta dor
quem se esconde nas sombras não merece amor
um sino vai tocar
e uma porta vai se abrir
pra recolher
o que da mesa sobrou
e é tanta dor
quem se esconde nas sombras não merece amor”
(Criolo)

Araci, Roseli, Dona Etelvina, Marilu, Maria, Sônia, Francisca, Teca, Ana, Regiane, Lili. Será que esqueci de alguém? Todas essas mulheres trabalharam na minha casa e de minha família como empregadas domésticas. Lembro-me delas. Do bolo formigueiro da Araci, da roupa impecavelmente passada da Dona Etelvina, da Marilu que acabou indo estudar informática, da Lili. Quase da família. Quase. O trabalho no espetáculo “O Jardim”, da Cia Hiato, me fez vasculhar essas lembranças e procurar o universo dessas pessoas que fazem parte da intimidade diária das vidas de quem tem o privilégio de poder contratá-las.

“O Jardim” foi criado a partir de pesquisas da Cia Hiato sobre a memória. As histórias da peça surgiram de exercícios sobre relatos biográficos do elenco e do diretor, levantando as memórias que gostaríamos de guardar, as que preferiríamos esquecer, e aquelas que desejaríamos ter no futuro.

A memória está intimamente ligada à criação, à imaginação. Por um lado, sempre que evocamos uma lembrança, recriamos aquele momento, afetados pelas sensações que tivemos. Quantas vezes, ao conversar sobre certo acontecimento, percebemos como as lembranças são diferentes de uma pessoa para outra? Ou nos pegamos com a lembrança de algo que de fato não participamos, não estávamos presentes? Então, lembrar também é um ato criativo.

E a própria criação, por sua vez, também está diretamente relacionada a lembrar-se. Tudo o que criamos tem origem em algum lugar da memória, filmes, músicas, livros, situações vividas, pessoas que conhecemos.

Como escreveu Michel Laub sobre o processo da escrita “não existe criação sem memória, e memória é autobiografia. A descrição de um lugar só pode ser feita a partir de pedaços recombinados, mesmo que em negativo, de lugares onde estivemos.”

Com essa atenção, com a consciência disso, a personagem Paula, empregada doméstica, foi criada. Cada detalhe de seus gestos vem de um lugar específico: o jeito mineiro de falar tirado de vídeos de famílias sendo despejadas, o jeito de um amigo dançar, de uma desconhecida mover os braços, de uma vizinha levantar as sobrancelhas em desaprovação, de outra pessoa conter o sorriso que não se permite escancarar na boca. Não tivemos receio de procurar referências, as mais variadas, no universo popular. Essencial o constrangimento tímido da Dona Joselina, daquele quadro de transformação de casas, do programa do Luciano Huck. E a mais importante, a alma da minha personagem, a Lili.

Curioso pensar que em outros países, a relação com empregadas domésticas pode ser bem diferente da nossa. Em Londres, muitas são estudantes universitárias, estrangeiras de classe média, que trabalham para pagar a própria viagem ou um curso. Muitas exigem estarem sozinhas quando vão trabalhar, preferem que os patrões não estejam em casa. Aqui a relação que se estabelece quase sempre é parecida com a de amizade e elas aparentemente procuram intimidade.

Acredito que raramente as domésticas se tornam amigas, como se fossem parte da família mesmo, apesar de não ser impossível. Com a Lili foi assim. Ela apareceu na minha vida quando eu ainda estava na faculdade, e ela trabalhava na casa de uma amiga. De serial killer de roupas se tornou uma leitora, uma profissional competente das coisas da casa, da culinária, das propriedades dos alimentos. Sempre acreditei que educação e cultura se constituíssem num passaporte, um ticket que permitisse a qualquer um circular por todo o mundo, por todas as situações e círculos sociais. No caso da Lili, me enganei. Hoje, ela faz faculdade de administração e apesar disso, não quer trabalhar com outra coisa, que não esteja ligada aos afazeres domésticos.

Já vinha pensando nisso, quando conheci a história da poeta Orides Fontela. Nascida em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, sua família não teve muitas condições de estudar, seu pai era operário analfabeto. Aos 27 anos, deixou sua cidade natal e veio morar em São Paulo, formou-se em Filosofia na USP, e mesmo depois de publicar vários livros, tendo recebido prêmios como o Jabuti de Poesia e o APCA, Orides Fontela não conseguiu se sentir parte de um mundo diferente.

Outro dia, a Lili veio me visitar. Eu estava amamentando minha filha de cinco meses na ocasião, sentada numa poltroninha no quarto do bebê. Pedi a Lili que se sentasse na cama em frente a mim, ela se recusou. Insisti, a recusa também foi incisiva. E ali na minha frente estava Lili, com todos os livros que leu, com os cursos de culinária, de administração, em pé, na minha frente se recusando a se sentar. Talvez a distância fosse menos dolorosa, se ela não se permitisse uma aproximação mais íntima. A Lili ali em pé na minha frente não pertencia àquele mundo, àquele quarto, àquela cama. Eu a vi sentada no metrô, nos trens, nos ônibus, num percurso diário, que lhe consome três horas, na ida e volta do trabalho. Eu quis dizer que não importava se sua saia estava suja de trem, de ônibus, de metrô. Mas não disse.

Paula Picarelli é atriz, bacharel em Artes Cênicas pela ECA-USP, e integrante da Cia Hiato, desde 2009.
Durante seis anos, apresentou o programa “Entrelinhas”, da TV Cultura, em que também fez reportagens e entrevistas com escritores e personalidades ligadas ao mundo dos livros como: Lygia Fagundes Telles, Paulo Autran, Fernando Arrabal, Zé Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho, Humberto Werneck, Nuno Ramos, Andres Neuman, Lionel Schiriver, entre outros.

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