[vc_row][vc_column][vc_column_text]O eixo temático é uma liberdade orientada, o que à primeira vista pode parecer uma restrição na verdade é apenas uma delimitação de vasto território a ser explorado, é como viajar para a Europa, há um continente inteiro a explorar e as turmas e professores escolhem quais países desejam conhecer melhor.

A escolha do eixo temático que norteia os trabalhos no Curso Técnico em Arte Dramática normalmente se apresenta voluntariamente, não há esforço, nem sessões de debate se devemos escolher esse ou aquele tema, porque ele simplesmente acontece, bate à nossa porta e diz: “Cheguei!”. Foi assim com “Shakespeare” que veio cheio de energia em comemoração aos seus 450 anos, foi assim com o “Teatro Político” que chegou chegando após os efeitos das eleições de 2014, e foi assim com… bem… é melhor contar a estória: Eis que duas meninas começaram a desenhar na parede da Unidade 1 inserindo grandes nomes do teatro mundial e nos demos conta de que não havia nomes de mulheres naquela parede, e qual não é a dificuldade de lembrar dessas mulheres? De seus nomes que normalmente aparecem como meras menções nos livros de história. Assim se apresentou como um pedido, um eco vindo dessas vozes femininas que façamos em conjunto um resgate do papel da mulher no teatro realizando em 2016 o Eixo Temático: A Mulher no Teatro Hoje – Resgate do Passado e Perspectivas para o Futuro.

Para reforçar o eco dessas vozes fui apresentada à Julia Varley, atriz britânica que compõe o elenco do Odin Teatret e é uma das fundadoras do Magdalena Project, logo no início do seu livro “Pedras D’Agua” (1) dispara:

julia-sonriendo3“Poucas mulheres têm papel relevante na história do teatro geralmente estudada em academias ou universidades. Foram atrizes e artistas importantes mas não elaboraram teorias, e suas experiências chegam até nós, em grande parte através de biografias, cartas ou informações de noticiários. No século dos grandes reformadores do teatro e da direção, as mulheres ficaram à margem. Fazem parte de uma multidão de pessoas cujas realizações permanecem encobertas e sem reconhecimento.

Em 2004, dediquei o quarto Festival Transit (2), que teve como tema Teatro – Mulheres – Raízes, à Maria Alekseevna Valentej, a neta de Vsevolod Meyerhold. Maria consagrou sua vida a resgatar a memória e a herança de seu avô, enfrentando, inclusive, o governo soviético. Perguntei-me por que dedicava um festival de teatro de mulheres a quem dedicou sua vida a resgatar a obra de um homem. O impulso veio quando soube de sua morte, depois de tê-la conhecido em Moscou. Todos sabem quem é Meyerhold, mas quem se lembrará de Maria ou Masha, como a chamavam?

(…)

Desde que trabalho com o Odin Teatret e escuto as palestras de seu diretor, Eugenio Barba, ouço falar de Meyerhold, Stanislavski, Brecht, Artaud, Appia, Craig, Copeau, Grotowski e toda vez, pergunto-me por que não há nomes de mulheres entre esses mestres. Raramente ouço mencionarem Duncan, Duse, Mnouchkine…”

Será ou “foi” o teatro, um ambiente que assim como outros, legitima a idéia de Simone de Beauvoir de que a mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem?

beauvoir“Para Beauvoir, a mulher não seria definida em si, na sua originalidade, mas em comparação ao homem e em detrimento dele; é vista e definida pelo olhar masculino que toma um caráter absoluto e sem reciprocidade. Fixa-se a mulher num lugar, o mundo para a mulher não é apresentado como deveria ser a todo ser existente, com todas as possibilidades, o que faz com que se frustre o projeto humano de autoafirmação e criação” (2)

Os Objetivos Gerais são INVESTIGAR:

–  O papel da mulher no teatro, seja na atuação, direção, dramaturgia ou pesquisa

–  A representação da mulher no teatro, como personagens escritas por homens.

– Os caminhos da representação da mulher no teatro e como vêm se alterando através dos tempos

– Quem são as grandes atrizes que ficaram à sombra de seus diretores/encenadores/dramaturgos?

– Como o ator/atriz contemporâneo pode olhar para esse assunto e criar material artístico de maneira crítica?

– Como os movimentos femininos influenciaram, se influenciaram, o movimento teatral?

– Quais as especificidades de companhias dirigidas por mulheres?

A palavra INVESTIGAR o assunto já deixa claro que não está entre os objetivos do semestre levantarmos bandeiras, não é um ano Feminista (embora se surgirem discussões a esse respeito elas terão seu espaço, pois se mostrarão como uma necessidade advinda dos objetivos principais) é uma investigação sobre a Mulher que inclui o Homem nessa perspectiva, ou seja, não é um ano para garotas, é um ano para todos, sem distinção de gênero contribuirmos para encontrarmos respostas para as perguntas que surgirão nessa investigação. Exemplificando essa idéia: se teremos Brecht nos cabe dar espaço à Helene Weigel, se teremos Moliére nos cabe trazer à luz Madeleine Béjart, se teremos Ibsen nos cabe pesquisar a interpretação de Eleonora Duse em suas obras, se leremos Sábato Magaldi nos cabe folhear com mais cuidado as páginas de Barbara Heliodora, se assistiremos Zé Celso Martinez Correa também nos cabe assistir Bibi Ferreira.

Como nos anos anteriores devemos considerar que todas as turmas do Curso Técnico participam do Eixo Temático, e que de alguma forma o eixo esteja presente na escolha dos textos/cenas/fragmentos e num projeto específico nas disciplinas teóricas.

Andrea Weber

Diretora Pedagógica

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