Por Tony Giusti

O Teatro como uma arte perene trás em si o paradoxo da efemeridade, uma vez que a partir do momento em que uma encenação sai definitivamente de cartaz, pouco restará dela na memória das pessoas, e fora destas, em alguns registros fotográficos, em vídeos ou edições antigas dos periódicos, onde esta tenha sido anunciada ou recebido alguma crítica. E o Teatro a duras penas permanece. Mas…

Registros históricos antiquíssimos já registravam – isso ainda se repete junto ao público e profissionais da área – a seguinte pergunta: o teatro está acabando? Aqui deixo as generalizações de lado e parto para uma opinião pessoal.

Não acredito que o Teatro esteja acabando, e tampouco acredito que este vá acabar. Minha dúvida é quanto à plateia. Não será esta que está acabando? Se você é um frequentador assíduo de teatro, ou se você é um profissional envolvido direta ou indiretamente às Artes Cênicas, já deve ter se perguntado mais de uma vez. Cadê ela? A plateia?  Embora o número de Leis de Incentivo, o de Salas de Espetáculos, a quantidade de espetáculos produzidos, de guias culturais distribuídos gratuitamente, a frequência de público não acompanha esse ritmo e podemos afirmar que visível e sensivelmente tem diminuído.

Salvo raras exceções de grandes produções do chamado “Teatro Comercial” – termo bastante relativo – a maioria das produções tem amargado uma triste realidade. Muitas poltronas vazias.

Nem mesmo espetáculos com ingressos gratuitos, aliás, cada vez mais frequentes – uma vez que esse tem sido um dos principais itens de adequação à chamada “contrapartida social” nos editais públicos de incentivo cultural – têm obtido quantidade expressiva de espectadores. Isso nos remete a questionamentos bastante frequentes a quem – como eu – está envolvido diretamente com Teatro e que quando não está no palco está assistindo trabalho de colegas que também têm se perguntado: O Teatro está acabando?

Otimistas, alegam que nunca se produziu tanta peça e o público diminuiu diante do grande número de atrações de outras naturezas que “roubam” ou desviam e dividem a atenção dos interessados. Até mesmo a violência tem sido apontada como uma das principais causas de tal fuga dos espectadores de teatro. Tudo pode ser dito contra e a favor destas afirmativas. Tudo por ser dito a respeito de tudo e embora às vezes coerentes, outras paradoxais, tais alegações não explicam conclusivamente o fato da fatídica pergunta, (Cadê ela?) permanecer sem uma resposta “consistente”.  Qualquer guia cultural atualmente apresenta em média quase duas centenas de peças que podem ser vistas mensalmente na Capital
de São Paulo. Sim, há muitos espetáculos gratuitos, há teatros extremamente acessíveis e de fácil acesso em áreas relativamente seguras, e mesmo o grande número de atrações oferecidas não chega a ser excessivo, se considerarmos as dimensões de uma metrópole de proporções também excessiva como São Paulo.

Pouco tem sido falado a respeito ou evita-se tocar no assunto, mas pode-se afirmar indubitavelmente que se esta – a plateia – ainda não acabou, está desaparecendo exponencialmente.

Salvo raras exceções o que se vê é a maioria dos teatros vazios e mesmo o tradicional “Circuito Sesc” já apresenta sinais de esgotamento;  a marca que antes era uma espécie de “grife” para um espetáculo, já não tem tido mais suas antes disputadas temporadas, repletas. A verdadeira questão é: o que os artistas, produtores, grupos de teatro novos ou já consagrados têm discutido a esse respeito, como os principais agentes interessados?

Enquanto o cooperativismo, as leis de incentivo, as teorias e práticas teatrais se restringirem a pontos de vistas de poucos ungidos por tais benefícios e que nem sempre se revelam gênios, uma maioria desamparada permanece vagando sem direção e objetivos específicos, ou tais objetivos são o de se integrar a um sistema viciado e muitas vezes tendencioso. E a “Arte” vai se perdendo em meio a editais e burocracias insanas.

Não seria a hora de uma união efetiva dos profissionais das Artes Cênicas no sentido de uma discussão abrangente e duradoura visando enfrentar tais questões? Onde foi que todo esse processo se iniciou? Para onde caminha? Até quando os artistas envolvidos em produções e espetáculos teatrais de São Paulo e do Brasil se manterão fechados em seus “ninhos”, defendendo egoísta e oportunistamente pontos de vistas individuais sem diálogos e questionamentos recíprocos? Qual o nível profissional que as escolas de formação de atores ou mesmo técnicos têm colocado no mercado? Qualitativa e quantitativamente as leis de incentivo têm correspondido satisfatoriamente aos seus verdadeiros objetivos?

Por que não discussões mais profundas e concretas em relação ao “fazer teatral”, tema tão caro a toda a categoria? Para quem faz parte do “meio”, sabe-se que muitas e muitas vezes é a seguinte a alegação para se deixar de ir ao teatro, inclusive por parte de quem faz teatro.: “muita coisa ruim sendo apresentada”. Bastante subjetivo tal argumento, uma vez que ruim para um pode ser o ótimo para outro. Óbvio. E quando falo em discussões sugiro que sejam objetivas e direcionadas com temas específicos. Ouso ainda sugerir temas. Por exemplo: o Teatro pós-moderno ou mais especificamente o Teatro pós-dramático. Sabemos o que é, mas temos tanta certeza assim de quando e onde está sendo efetivamente praticado? Esta estética de percepção aberta e não conclusiva tem produzido algum resultado perene? É um modismo ou veio prá ficar?  Claro, que só o futuro dirá, mas a discussão não tem que ser agora? Ou deixaremos que o destino conduza livremente nossa arte dramática e façamos a análise de tais experimentações num futuro que poderá se revelar opaco, vazio de resultados e perspectivas artísticas? Essa “filosofia artística” da pós-dramaticidade tende a desconectar o Teatro da racionalidade iluminista, mas até o momento não me parece ter oferecido uma alternativa satisfatória para sua própria existência. Claro, tem grande valor artístico e estético porque ousa se adequar a um tempo de desesperança, incredulidade e vazio. Porem, não podemos esquecer que o ser humano está habituado e se sente confortável com o reconhecimento daquilo que vê e ouve no palco, e quem sabe seja esse eterno conflito, a “aporia” que faça com que pessoas, indo contra todos os atrativos que insistem para que estas não o façam se desloquem de suas casas para salas de espetáculos. Talvez o ser humano ainda não esteja preparado apenas para a “fruição” de uma obra mesmo que esta confronte vorazmente seu próprio tempo. E para encerrar, nosso tempo e nossa arte – O Teatro – necessita urgentemente de uma discussão séria, um direcionamento ou ao menos uma tentativa de. Afinal estamos num tempo onde tudo pode ser descartado e resta-nos apenas optar se o que queremos é entender seriamente a fluidez de um tempo líquido como nos sugere Zygmunt Bauman no excepcional O Mal-Estar da Pós-Modernidade e em toda sua obra, ou nos entregarmos às superficialidades de um tempo onde a comunicação flui imediata, rasteira, descartável e irracional. Se todo o dito acima não for considerado um assunto em pauta e urgente, no futuro poderemos todos constatar que a seguinte charge que circula atualmente no Facebook e vastamente repassado pela própria classe teatral nesta rede social da vez, é uma triste realidade. Vamos a ela: “Será que isso é teatro pós-dramático ou eles não ensaiaram direito?” A sorte está lançada.

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