por Gabriela Cerqueira

Agosto de 2011. Monografia a escrever. Desespero. Revisitar as memórias. Encontrar um objetivo honesto. No tempo do eu, escandalizo-me no BBB da Academia. Como diria Mano Brown, “vou contar uma história real, eu vou contar a minha”.

“Estranhem o que não for estranho

Tomem por inexplicável o habitual

Sintam-se perplexos ante o cotidiano

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra”

(A Exceção e a Regra – Bertolt Brecht)

Crescer na periferia é crescer frente a frente com as contradições desse mundão de meu deus. É ser um desconfiado nato. Um soldado vermelho em prontidão. Contra tudo e contra todos sempre. Defesa. Só. E pensar sobre isso hoje só foi possível através do contato que tive com a arte, e com o teatro.

“Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros.” (As Negociatas – Clarice Lispector)

Estreei em “Corpo Fechado” (2005) e simultaneamente percebi que as cadeias não recuperavam ninguém e que eram apenas o desaguar dos erros que não começavam ali, pensei no trabalho da escola, da família e da comunidade. Pensei no meu bairro e nos muitos meninos e meninas sem perspectivas e sonhos envolvidos no mundo das drogas, na marginalidade. Quando vivi a vida deles no palco, passei a enxergá-los. Eu via, mas não enxergava. O atual morador da minha comunidade ignora sua condição social, muitos têm acesso à internet banda larga e navegam por mares virtuais, enquanto sapatos velhos navegam no córrego que transborda e passa nos fundos de sua casa. Falta espaço para o contato, para a observação e para o diálogo. Espaço que falta aqui, mas sobra dentro da linguagem teatral.

Uma das coisas mais importantes que aprendi nesse processo de dez anos (desde o primeiro curso livre até hoje), iniciado e desencadeado pelo fazer teatral é que o conhecimento, como a criação artística, é inesgotável, envolvente, alimentam as nossas idéias, escolhas e ampliam os nossos caminhos e descobertas. Revela-se que quanto mais eu conheço, mais eu preciso conhecer num movimento de círculo virtuoso.

Termino a tal monografia dizendo assim: “Sinto-me pronta para compartilhar minha experiência e atuar como mediadora na formação de cidadãos, éticos, críticos e conscientes”, e dizia isso em relação à periferia claramente. Mas essa vida é danada pra pregar peça na gente. Eis que surge a oportunidade de dar aula na Escola Nacional de Teatro. Curso: Desinibição e Comunicação.

O curso tem como objetivo promover ampliação pessoal e cultural, além do aprimoramento da comunicação, e para isso utiliza ferramentas como os jogos teatrais. E o que assisto durante os seis meses seguintes é o mesmo filme que interpretei anos atrás. A descoberta do teatro, o lugar da sensibilidade, da razão e da emoção resgatando a liberdade de expressão e as relações humanas. Cada um ao seu modo vai retomando as rédeas da própria vida e vendo que nós temos escolhas. Os jogos teatrais, muitas vezes, nos trazem a missão de tornar reais lugares, objetos, personagens e ações. Maria Lúcia de Souza Barros Pupo, em Para Desembaraçar os Fios, afirma que para Viola Spolin

Ao entrar em relação com o parceiro de jogo, propondo ações e respondendo simultaneamente às ações do outro, construindo assim uma ficção partilhada com a platéia, o participante cresce, amplia sua percepção do outro e do ambiente, aprende como se dá a significação no teatro. Desde que a relação lúdica oriente sua prática, o teatro é visto como uma arte prenhe de possibilidades para o crescimento de quem a experimenta.

Nesse mundo onde o novo já nasce velho, vejo que meu tema de monografia “Teatro, área do conhecimento do cidadão na periferia” ficou para trás. Página virada. Revirada. Teatro é para todos. O teatro é uma obra de arte em processo, social e comunal. Pra quem faz. Pra quem vê. Pra quem ensina. Pra nóis.


Gabriela Cerqueira; atriz,  integrante da Cia de Teatro 5 Marias, arte- educadora, formada em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes, é pós-graduada em Linguagens da Arte pelo Maria Antonia Centro Universitário da USP.

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