A atriz Claudia Mello concedeu entrevista gentilmente à Revista Cena 20, falando sobre o inicio de sua carreira, a profissão do ator e o novo projeto na GNT “Três Terezas” onde novamente faz parceria com Denise Fraga, confiram:

 

RC20 – Nossa revista digital tem um grande público de alunos de teatro, conte pra gente como foi seu inicio na profissão

CLAUDIA – Comecei com o Teatro Universitário, nos anos 70, muitos grupos de teatro fizeram trabalhos relevantes no período como o Tuca da Universidade Católica com “Vida e Morte Severina”, o TESE, etc. Eu fazia parte do TEMA Teatro Mackenzie com a peça “A Capital Federal” de Arthur Azevedo, dirigida por Rui Nogueira, fazia a “Lola”, papel principal. Depois fui convidada por Augusto Boal pra fazer parte do Núcleo 2 do Teatro de Arena e comecei a estudar o Método Stanislavski com Eugënio Kusnet, dança com Maria Ester Stokler e por ai vai… Não tive uma formação acadêmica, mas nunca parei de estudar. O estudo deve caminhar com a práxis.

RC20 – Gostaria que você comentasse a sua relação com o teatro, o que você adora e o que você não curte enquanto atriz

CLÁUDIA – Adoro o fazer teatral: estudar, decorar, interagir, a concentração que isso exige. Recentemente fiz CHORINHO de Fauzi Arap com Denise Fraga, minha querida. Que trabalho delicioso. Amo fazer teatro, cinema, TV. Gosto de fazer um trabalho, no qual expresso minha opinião e esteja em sintonia com o que quero dizer, expressar o que penso, o que sinto, etc. Gosto de trabalhar com pessoas que amo, ou amáveis, colegas leais e que nos doemos ao trabalho com entusiasmo, embora possamos discordar, com liberdade e bom humor.Considero o trabalho de grupo um trabalho amoroso. Não gosto de grosserias!

RC20 – Vc mencionou o espetáculo “Chorinho” que tem uma temática contemporânea, mas em contrapartida é muito sensível, gostaria que você comentasse sobre o processo de montagem, tanto no sentido da sua criação para a personagem, como da direção do Fauzi.

CLÁUDIA – Fauzi é um extraordinário diretor de atores com técnicas avançadas que ele usa quase que intuitivamente para nos fazer mergulhar fundo no processo. Um trabalho de mago, de poeta, uma vez que o texto é dele. Sensível é a palavra, ficamos atilados ao trabalhar com ele! Percebemos que estamos diante de um processo raro do fazer teatral, muito significativo! Gosto de descobrir através do outro, com o outro, quase como se me colocasse em ponto neutro e nåo atuasse. Um personagem é sempre mais rico que as preconcepções. Um ou outro maneirismo, o método básico do Stanislaviski, o que vi, o que estudei, observei, a memória, vão somando aos poucos. Leio bastante sobre tudo e vou muito ao cinema.

RC20 – Você estava no elenco de “Vejo um Vulto na Janela” em 1974, e a ditadura corria solta no Brasil, como foi esse período pra você e como foi participar dessa peça que pode ser considerada tão subversiva aos olhos dos militares?

CLÁUDIA – Como artista não caberia a mim um papel moralista, ou de censora da própria obra. Eu fazia o meu trabalho. Artistas em geral subvertem (risos)

RC20 – Tive a oportunidade de assisti-la no espetáculo “Caixa Dois” do Juca de Oliveira, que foi um sucesso estrondoso na época, ficou muito tempo em cartaz, hoje a maioria dos espetáculos tem um “vida” mais curta, como você vê as mudanças que vem se apresentando no panorama teatral?

CLÁUDIA –  Elementos de espanto, que surpreendam, divirtam, façam refletir, comunguem com o espirito de sua época, sejam universais, são para autores muito especiais como Juca de Oliveira que tem essa visão do todo, vasta cultura, intuição e conhecem as estruturas da comédia. Não se trata mais de experimentalismo, mas de alcance imediato e popularidade. Acho que em todos os tempos espetáculos têm essa capacidade de atrair grande número de pessoas, outros não. Não estou me referindo à qualidade, claro. O bom teatro a meu ver, não se mede só pelo numero de espectadores ou tempo que permanece em cartaz. Infelizmente. Quero novamente acentuar que não estamos falando só de qualidade. Muitos ótimos e relevantes espetáculos tem curta duração. Acho que esse fato não é uma invenção mercadológica. Esse vai durar, aquele não. Acho que tem a ver com o caráter da própria obra exposta ao público. Mistérios!

RC20 – Você ja trabalhou com os maiores diretores teatrais do país, enquanto atriz como rende mais: com diretor que marca tudo ou com diretor que dá mais espaço a criação do ator?

CLÁUDIA –  Acho que o trabalho com qualquer diretor se realiza melhor quando há cumplicidade, afeto e certa identidade. Acredito no ator sujeito do seu trabalho, isso nos dá autonomia para jogar juntos, nem que às vezes você acate o trabalho do diretor porque concorda com ele, é sempre um acordo. Por serem grandes diretores como você diz, não é difícil aceitar o que propõem. Gosto do diretor que joga junto.

RC20 – Você está gravando “Tres Terezas” para GNT e trabalhando novamente com Denise Fraga, dá pra adiantar um pouco sobre a série?

CLÁUDIA – Estou amando participar da série. É uma família de três mulheres: a Terezinha (que é o personagem que faço), a Teresa (que Denise Fraga faz) e a Tete (que Manoela Aliperti, uma encantadora jovem atriz faz) e pela ordem são avó, filha e neta. Tem sido uma exuberante troca de todos os envolvidos, incluindo as participações brilhantes. Um desenrolar da vida dessas mulheres em um momento específico que não vou dizer qual é, melhor dizendo, momentos específicos de cada uma delas. Roteiro muito bom. Processo delicioso que fazemos à milhão, com pura dedicação e liberdade. Uma delicia. Esperamos que quem assista goste. A tal história, a entrega é tal que não há muita preocupação com o resultado e quando digo todos, são todos mesmo. Equipe excelente. Amo demais minha profissão para passar constrangimentos com ela. Quando digo que está bom é porque esta boooom mesmo (risos). Desculpe não lhe dar mais detalhes, ta?! 

RC20 – Que dica ou conselho você daria aos alunos de teatro que estão ingressando agora no mercado profissional?

CLÁUDIA – 50% de talento e os outros 50% de vocação. Tem que suar a camisa. Estudo, ler bastante, persistir, aprender com os erros e não se esquecer de agradecer, buscar sabedoria e ser doativo, buscar autoconhecimento, observar muito. Ser ético, verdadeiro. Cultivar o bom humor, divertir-se. Amar seu oficio. Fazer terapia e mais um monte de coisas. Viajar… Amar a natureza, as pessoas, a si mesmo… E REZAR (risos). E confiar em si, porque em geral somos muito sensíveis, confusos e inseguros. Não esquecer que atores também são trabalhadores! Ir bastante ao cinema e galerias de arte. Porque a dificuldade pra quem come, bebe e dorme teatro é ir mais ao Teatro

Um trabalho engajado as causas populares também é muito útil. Crítica, filosofia, sociologia e política tem que estar na pauta das reflexões sobre o mundo. O teatro é como uma Arena, onde discutimos a nossa condição humana!

   

%d blogueiros gostam disto: