Texto de Aderbal Freire Filho retirado do Programa do espetáculo “HAMLET”  dirigido e encenado por ele, cujo personagem título foi  vivido
por Wagner Moura

Antes

Todos os Hamlet do mundo. Posso começar assim a apresentação de mais uma viagem a Dinamarca de Hamlet, partindo de qualquer cidade. Porque é um começo que abre muitos caminhos. Como, por exemplo o tesouro de possibilidades dramáticas e cênicas dessa peça de teatro inesgotável. Um mundo ideal talvez previsse que cada cidade teria, ao lado das suas escolas, hospitais, museus, quadras esportivas, um lugar (teatro, ginásio, galpão) onde sempre estivesse Hamlet em cartaz. O visitante chegaria e perguntaria na rua ao primeiro que encontrasse: e Hamlet, onde é? Digo um mundo ideal, porque no Hamlet de cada cidade estaria a possibilidade do cidadão conhecer melhor o homem, conhecer suas possibilidades (suas fraquezas, suas forças, seus instintos, suas misérias, suas nobrezas…), conhecer-se.

Mais um Hamlet. Também podia começar essa apresentação assim. E continuar: pena que seja só mais um.
Porque estaria tocando
numa questão que provavelmente a notícia de novo Hamlet levantaria, a questão de encenar mais uma vez essa peça que já foi tantos espetáculos, tantos filmes, tantas versões. E ao anunciar mais um, responderia a essa questão assim: mais um Hamlet, desculpem que seja só mais um e não cinco, dez Hamlet no Brasil. O certo seria sair de norte a sul abrindo franchising de Hamlet. Não seria melhor esse mundo, tendo ao lado de um McDonald’s um Hamlet? (Salta um Polônio e Duas Ofélias…!)

Tentei Macbeth, Lear, Falstaff, todos personagens do mesmo William e o corretor do Windows desaprovou, sublinhou de vermelho. Hamlet ele aceitou.

Até Bill Gates sabe de Hamlet, sabe que ele está aqui, entre nós, vivo.

Ah, ai está a questão! Manter Hamlet vivo, aqui, entre nós, dizendo pela primeira vez ser ou não ser, e não repetindo umas palavras impressas (em todas as línguas) com um jeito pomposo, empoeirado de versos sagrados de um velho poeta. Porque eu não quero, nem você, eu acho, ouvir outra vez uma lição de poesia inglesa (está bem, universal) da aula de literatura. Eu quero encontrar com essas pessoas vivas que só encontro nesse lugar fantástico, doidaço, mais moderno do que o último invento da tecnologia de ponta mais de ponta , esse lugar chamado teatro. Não quero a velhice da escola risonha e franca, nem a velhice do iPod. Quero a novidade mais nova, o teatro, que não é de ontem como aquela escola, nem de ontem como o inverno do semestre passado (até chegar ao primeiro consumidor, levou um tempo pra ser produzido, anunciado, vendido…), quero hoje. E só o teatro é hoje. Só diante do espectador que vai hoje, com a dor de barriga e a paixão de hoje, Hamlet vai dizer que a questão é ser ou não ser. Nunca disse isso antes.

Esse é o espetáculo a ser construído. Com personagens reconhecíveis, vivos, em uma dinamarca salve estácio, salqueiro, manqueira, oswaldo cruz e… bahia. Samba não necessariamente de ritmo de samba, mas de dar samba. E dinamarca , porque não é preciso navaiorquizar ou carioquizar o país de Hamlet para ser novo e universal . Apenas umas imagens e sons, apenas uma expressão cênica que fale comigo e com você.

E dentro desse espetáculo , os atores poderão construir personagens que pela primeira vez vão ver o fantasma do pai, atirar-se nas águas de um riacho, beber vinho em uma taça envenenada.

 

Traduzindo

Numa tarde de janeiro deste ano, seria a segunda ou terceira semana de janeiro, no meu apartamento perto da praia de Ipanema, estávamos o Wagner, o Serginho (produtor e amigo) e eu conversndo mais uma vez sobre o destino. Vou baixar a bola, estávamos traçando os destinos do mundo. Piorou,tento de novo. Estávamos traçando os destinos do mundo que resolvemos criar, agora vai, o mundo que iria um dia funcionar nesse cosmos chamado palco de teatro. Nessa tarde, uma tarde comum de começo de ano , e com esse propósito zinho de nada (ou seria zão de tudo?), orientar o destino, decidimos traduzir Hamlet. Eu disse uma tarde comum de começo de ano , mas as tardes dos começos de ano nunca são muito comuns, ainda ressoam os ecos das emoções de fim e começo que acabamos de viver e vivemos sempre, malgrado nosso, desde que o homem acreditou nessa superstição gregoriana chamada calendário.

E essa tarde acabou sendo especialmente incomum pela decisão que tomamos.

Estávamos às margens de um canal, o canal do Jardim de Alah, o que não era o mesmo que estar às margens do Basin Canal, em Stratford-Upon-Avon. Logo, não posso atribuir a essa vaga coincidência geográfica a inspiração e, mais ainda, a coragem e determinação da nossa decisão. Além disso, as vocações geográficas nunca influíram muito no meu destino, pois sendo do Ceará, minha maior probabilidade profissional era ser garçom, e se falasse inglês, ser garçom em Londres, como tantos brasileiros. Acabei artista de teatro e se dependesse do meu conhecimento da língua inglesa não conseguiria o upgrade para ser garçom em Londres. E aí estava justamente o problema, com esse inglês de nem garçom em Londres como traduzir Shakespeare? Foi então que surgiu o nome de Bárbara Harrington na jogada, americana de Connecticut, radicada em Santa Teresa. Formaríamos um trio, a Bárbara, o Wagner e eu, os dois tocariam afinados e eu seria o responsável pela desafinação. Enfim, mesmo não sendo garçom, acabei cobrando a conta (the bill). Cobrei do Bill a conta que ele pagaria em português por seu poema ilimitado. Nessa época eu estava lendo Dizzer quase a mesma coisa, um Umberto Eco (Dire presque la meme chose, na tradução francesa) e talvez isso tenha me animado. O livro do Eco sobre tradução, como referência imediata e uma lembrança do caldeirão Borges, como boa maluquice. Nos anos 70, Borges foi meu deus quase único, uma fase de raro monoteísmo, e daí ficou um caldeirão de lembranças que me assaltam nos momentos certos ainda hoje, mesmo imprecisas, a devoção ainda fervorosa e um olimpo mais povoado. Pois desse caldeirão saiu a lembrança do que Borges conta de um amigo seu, que teria tentado provar que seria capaz de entender qualquer palavra escrita, de qualquer idioma, bastando olhar bem pra ela. Bom, eu não precisaria de óculos novos nem de grandes esforços de concentração, pois o Wagner e a Bárbara juntos já jantavam o inglês do jogo. E além disso eu pretendia me dedicar sobretudo a língua de chegada, confiando naturalmente mais nela do que em mim, por que essa língua dulcíssima e canora do meu comoniano conterrâneo José Albano não poderia com carinho receber a poesia do bardo?

Hoje, a tradução já na boca dos atores, já na boca de cena, na boca do lobo, agradeço ao deus dos artistas de teatro, ou ao deus dos indecisos (mais por mim do que por Hamlet), ou simplesmente a Alah, do canal do Jardim de Alah, a confiança que nos deu naquela tarde de janeiro, porque a partir daí todas as forças do destino começaram a nos jogar para o (barão do) bom futuro.

Não sei o que mais procuramos na tradução feita em casa, se a clareza, se a carne macia na boca dos atores, ou se mesmo e sobretudo a poesia que, abdicando da métrica rigorosa, esperamos que esteja viva aqui. Uma por uma.

A clareza foi buscada linha a linha, dia a dia, noite a noite (digo, insônia a insônia), nota a nota de algumas edições, Oxford a Penguim, no glossário de David e Ben Crystal, de quartos a folio, bibliografia a bibliomania até o fim. E, o olho e a mente ligados, um pensamento só saía do forno para a mesa dos atores límpido e transparente.

Para deixar a carne macia, nada de perder a poesia. Esse versinho fácil quer resumir a decisão de não banalizar, não tornar coloquial a linguagem original poética. Isto é, simples, claro, transparente, fluente, mas não a um preço barato.

Enfim, a poesia. E para tentar acompanhar, mesmo de longe, sua beleza original, as metáforas, as imagens, as sonoridades, os valores possíveis e os quase impossíveis, a clara convicção de que a poesia não é por natureza rebuscada.

Esses foram os objetivos maiores. Depois, os infinitos valores mais, te esconde raposa e nós atrás dela (hide fox, and all after), os jogos de palavras, as tiradas de humor, as letras das canções populares, tanto, tanto.

Correndo atrás da raposa vinha junto o Eco, as perdas e compensações a tradução de cultura a cultura, a recriação de jogos de palavras, capítulos de Dizer quase a mesma coisa. De tudo isso queria dar exemplos, mostrar as voltas que a carambola do mundo deu falando inglês elizabetano, quicando na tabela do inglês contemporâneo e caindo na caçapa do português nosso de cada dia. Não tenho tempo agora ( e talvez não tenha nunca), pois não escrevo isso com tempo, estou entre um ensaio e outro, muita coisa a fazer ainda até a estreia para cumprir com esse misterioso oficio de diretor de teatro que ninguém sabe o que é realmente, um usurpador, já disseram, o que ocupa um lugar obsceno, disseram mais, sagrada e justa ignorância apoiada em sagradas ignorâncias.

Se eu tivesse tempo e saco (perdão, paciência) para dar exemplos, os exemplos mais ricos viriam de falas inteiras e dos caminhos percorridos ate seus significados e sua densidade poética. Mas os exemplos mais fáceis para a ligeireza desse bate-papo, o meu papo batendo só nesse papel ligeiro, são os dos jogos mais simples. Uma aliteração, deus, um delito diabólico, digo, diabruras.

Uma tentativa de pagar a conta toda do significado e da ressonância vendidos por Bill quando Hamlet chama Polônio de fishmonger, e não abdicar do duplo sentido, vendedor de peixe e proxeneta. A decidida perda e compensação do tracadilho entre Capitol e capital que Capitólio, em português, não segura. Coisas assim, muitas coisas assim.

Fiz uma tradução para uma encenação de Hamlet, mas, feita a tradução, vem a vontade espúria de publicar uma edição comentada, dezenas de notas explicando cada passo, cada decisão, cada sentido, cada razão, ou então um ensaio acadêmico sobre a tradução, todo mundo tem seu dia chato.

Enquanto essa edição não vem (provavelmente não virá nunca), sejamos elizabetanos, como somos. Enfim, estamos na era de Elizabeth segunda, não houve outra entre duas, nenhuma filosofia vai encontrar mais elizabetes no trono, entre a do bardo e a nossa, sob o céu da Inglaterra. Elizabeth era lá ele, e Elizabeth, depois dele, só nós. Entre ele e nós, jaimes, jorges, eduardos, por aí, até a chegada da sogra de Lady Di, nossa era, possivelmente o período final da era, tocando o mesmo pra Shakespeare e pra nós. Vamos nessa, queridos elizabetanos, para aproveitar a poesia que vem desse genial William diretamente do palco, solta, leve, fulminante, não escrita, mas de novo a poesia alada, a poesia que completa um gesto, um olhar, um movimento, que, enfim, fecha (ou abre?) uma ação. A poesia em ação.

 

Encenando

Sobre a tradução faltou falar de um foco bem aceso no palco: o destaque do teatro como personagem. E the play’s the thing wherein i’ll catch the consciense of the king, virou, para ser claro e direto, é com o teatro que eu vou agarrar a consciência do rei.

Hamlet, o artista de teatro. Hamlet ator, interpretado a fala inflamada (passionate) da peça que narra o assassinato de Príamo. Hamlet encenador, dando conselhos de boa interpretação aos atores, ajustem a ação a palavra e a palavra a ação, essa é a regra mais importante, com ela nunca vão perder a medida do que é natural (suit the action to the word, the word to the action, with this special observance, that you o-eerstep not the modesty of nature). Hamlet autor, escrevendo versos para serem incluídos na peça “O assassinato de Gonzaga”

E além desse protagonista autor, ator, diretor de teatro, tanto teatro mais. A peça dentro da peça. O pedido de Hamlet a Horácio para que viva e conte sua história. O elogio aos atores, eles são a crônica abreviada e certeira dos tempos (they are the abstract and brief chronicles of the time). A comparação entre a dor verdadeira  e a dor fingida – por Hécuba, mas quem é Hécuba para ele? – e… ponto para a dor fingida.

Esse protagonismo do teatro na tragédia do príncipe Hamlet exige, cobra, roga que o teatro dê em troca tudo o que tem para contar a história do dito príncipe. Uma peça sobre o teatro e o teatro lá, cheio das suas infinitas possibilidades, os alçapões, as mágicas, os mil e um cenários, os dias, as noites, as aparições e desaparições súbitas, a mudança de lugar dentro de uma mesma cena, e muito mais, tudo isso na palma da minha mão. Na palma da sua mente, meu caro elizabetano II. Basta você jogar junto, construir quando construímos, desconstruir quando desconstruímos, imaginar o que esta sugerido, e enquanto os atores jogam o tempo inteiro o jogo mágico do teatro, você viaja para a bróduei fascinante da sua própria imaginação.

Também aqui, falando do palco, vem a vontade de escrever minuciosamente, como veio a vontade de escrever  mais sobre a tradução. Também aqui vai ficar só na vontade, ah falta de tempo, ah ofício ingrato de diretor que toma todas as energias, ah preguiça.

Minunciosamente, eu disse. Porque qualquer comentário resumido corre o risco de confundir o olhar. E é o espetáculo, o jogo dos atores, não umas poucas palavras escritas aqui sobre ele, que deve agarrar seu olhar solto e vivo e sagaz e esperto e curioso, para levá-lo para as imensidões do mundo e as profundezas da alma, os lugares para onde nos conduz o genial Shakespeare, esse incomparável agente de viagens.

Nada que eu possa dizer sobre o príncipe Hamlet do Wagner, uma criação que combina extraordinaria energia, rasgado coração e finíssima e brilhante inteligência, se compara a sua experiência de vê-lo com seus próprios olhos. Para dizer alguma coisa, chamo aqui o Unamuno e roubo dele uma “definição” de filósofo que serve a Hamlet, ao Hamlet de W de Wagner, roubando também de Roland Jaccard que a usou em seu livro sobre o Hamlet (impossível) de W de Wittgenstein. Diz o autor de sentimento trágico da vida:

Ele (o homem) filosofa não apenas com a razão, mas com a vontade,com o sentimento, com a carne e os ossos, com a alma toda e o corpo todo. É o homem que Filosofa

Mas enquanto o estáculo esta vivo, antes que se cumpra esse destino mortal dos espetáculos, igual ao dos homens, melhor deixar que você mesmo escreva na sua cabeça e no seu peito tudo o que quiser, olhando para o palco, vendo e ouvindo essas ações e essas palavras que um inglês dos séculos XVI e XVII e uns brasileiros dos séculos XX e XXI, juntos, levaram até você. Depois da morte do espetáculo e,

se der, antes que minha caveira saja igual a de Yoriok, com um riso sem graça, de queixo caído, escrevo para a segunda edição desse programa (a edição póstuma). Se cumpro daqui a pouco meu projeto de parar de dirigir teatro e ser pescador nas praias do nordes

(…)te, levo uns cadernos de notas e enquanto anzol descansa no mar dedico as boas horas que vão sobrar a tarefa de escrever sobre mais esse ator que criou Hamlet, sobre sua teatralíssima, única criação. Mais uns escritos para o mar infinito de escritos sobre Hamlet, ponho numa garrafa e salto ali mesmo, no mar do nordeste.

E vale, então, pra terminar, um resumidíssimo informe?

O lugar onde ensaiamos Hamlet é um galpão metido dentro dos domínios do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ao lado do Solar da Imperatriz, que, como o nome diz ou não diz, remete a origem do horto florestal, o imperador, etc. Ali passamos a maior parte do primeiro semestre de 2008, tardes e noites, como e fosse a Dinamarca, como se fosse na Inglaterra, como se fosse o Brasil. Como se nós fossemos um grupo de teatro, o grupo de artistas de teatro que deveras somos. Atravessamos a floresta (o horto florestal) e assim chegamos a nossa Elsinore, onde fomos recebidos por um tal Polonio, que nos encaminhou ao príncipe infeliz, cujo tio matou seu pai e casou com sua mãe, e que pediu a um outro grupo de atores que representasse a história de um rei morto pelo irmão que casou depois com sua rainha. Somos esses atores, essas atrizes, dentro desse espelho que nos reflete e reflete o mundo.

FICHA TÉCNICA
TEXTO: WILLIAM SHAKESPEARE
TRADUÇÃO: ADERBAL FREIRE FILHO, BÁRBARA HARRINGTON E WAGNER MOURA
DIREÇÃO E MISE-EN-SCENE: ADERBAL FREIRE FILHO
ELENCO:
WAGNER MOURA – HAMLET
TONICO PEREIRA – CLAUDIO
CARLA RIBAS – GERTRUDES
GEORGIANA GOES – OFELIA
CAIO JUNQUEIRA – HORÁCIO, FANTASMA E ATOR
CLAUDIO MENDES – GUILDENSTERN, MARCELO, FANTASMA, ATOR LUCIANO, MARINHEIRO E 1º COVEIRO
FABIO LAGO – LAERTES, FANTASMA E ATOR PRÓLOGO
FELIPE KOURY – BERNARDO, FANTASMA, ATOR RAINHA, CAPITÃO, MENSAGEIRO E PADRE
GILLRAY COUTINHO – POLONIO E OSRIC
MARCELO FLORES – ROSENCRANTZ, FANTASMA, ATOR REI, MARINHEIRO, COVEIRO E LORD
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