Por Thiago Sogayar Bechara

29/06/2012 a 12/07/2012

Sabe-se que, desde o primeiro milênio antes de Cristo, inúmeros documentos mesopotâmicos já continham a inscrição: “Para que não se esqueça!” (POZZER, 2004, p. 87 e 88), revelando não apenas uma concepção clara daquilo o que era eleito pelos antigos escribas para tornar-se História, mas sobretudo um preceito básico, anterior a este: o da necessidade inerente ao ser humano de documentar seu passado.

Sabe-se, ainda, que “(…) a História se ocupa do que ficou documentado, e a documentação se refere geralmente à vida das camadas dominantes” (CANDIDO, 2003, p. 23). Isto é: da documentação da memória coletiva de um grupo bastante específico, que possui sua ideologia – crenças e um conjunto particular de interesses, sejam estes políticos, econômicos, afetivos e que, claro, servem de filtro para o mundo (e, neste sentido, como “critério de seleção” psíquica e documental dos eventos a serem retidos ao longo do tempo e retransmitidos, por meio de incontáveis formas narrativas).

Neste sentido, o ato narrativo é visto por autores como o historiador francês Jacques Le Goff, como um dos principais traços, por sua vez, do ato mnemônico. É neste gesto, relativo à rememoração, que a própria linguagem como produto social recria e redimensiona o fato ou objeto ausente que se narra, conforme encontramos em seu livro “História e memória” (2003). Daí o aparecimento da escrita ser considerado pelo historiador como decisivo no processo de transformação da memória coletiva. Daí também a opção deste ensaio em trabalhar a gênese de alguns conceitos relativos à memória, tendo como elemento central o gênero biográfico, entendido aqui como importante ferramenta narrativa, conforme veremos oportunamente.

“Histórias, culturas e memórias são produzidas e armazenadas para vencer de modo brando, a irremediável questão do descarnamento humano”, explicou Maria Lucia Santaella Braga. “A cultura só evolui ao passo que preserva a memória do passado e, neste sentido, a implantação do código alfabético pelos gregos, por exemplo, é fundamental”. Para a Doutoraem Teoria Literáriae Livre-Docente em Ciências da Comunicação – em entrevista para meu trabalho de pós, concedida a 3 de julho de 2011 -, o caso no Brasil é controverso. Para ela, o país possui um modo leviano de se relacionar com a questão de sua memória, e faz algumas ponderações históricas visando avaliar possíveis causas que se estendem igualmente para o universo da nossa historiografia teatral no século passado. Vale a pena a transcrição deste trecho de seu depoimento.

“Nosso país não tem um passado do qual se orgulhar, dado o tipo de colonização de extração que sofremos (daí não possuirmos grande peso de tradição). Não há respostas peremptórias, mas sim hipóteses, neste aspecto. Nosso passado além de muito recente, é ralo, no sentido de não ter uma memória histórica de engrandecimento. Nós começamos a desabrochar culturalmente a partir do final do século XIX, apenas. E a tradição, em termos gerais, faz parte da constituição da identidade de uma nação. Por isso, para nós essa questão é complicada. Nossa identidade é híbrida, como explica Néstor Garcia Canclini, no livro Culturas híbridas. Segundo ele, as culturas contemporâneas são misturas não apenas de diferentes etnias, mas de signos antagônicos que aqui convivem, como erudito/popular e trabalho/lazer. Isso até mais intensamente no Brasil do que na América Latina em geral. É também o que diz Sergio Buarque de Holanda quando trata da interpenetração do público e do privado, em Raízes do Brasil. Além disso, se pensarmos que a história é sempre contada pelo ponto de vista das classes dominantes, no Brasil não há também uma classe dominante unificada, com um só ponto de vista. Não há um uníssono ideológico, de modo que até essa documentação também fica fragmentada, além de diversa. Acho até mais importante pensarmos na questão da diversidade, porque ela produz um tipo de visão caleidoscópica da realidade brasileira. Para concluir, há a questão da nossa relação com o tempo, que é experimentado de maneira acelerada, sempre mirando o futuro, sem a vivência do presente necessária para a construção de uma tradição. E, claro, a educação brasileira, que está falida. Não se trata de negarmos nosso passado porque negar dá trabalho, requer primeiro o reconhecimento. Mas é uma característica da constituição da nossa cultura. Somos levianos e negligentes mesmo. A mesma leviandade que, em contrapartida, traz nossa alegria e espontaneidade”.

Com tais ponderações, a pesquisadora traça um panorama que justifica, em grande medida, o sentimento de atração e valorização do brasileiro pelo passado europeu, já que, segundo ela, não temos propriamente o nosso, de que nos orgulhar. “Se não nos engrandecemos com nossa história, não há razão para querermos preservá-la”, pontuou. “Com isso, tudo o que nos remete à pobreza, à colonização, ao artesanato, à música local, é repudiado e associado como inferior. Valorizamos, assim, o que vem de fora!”. A questão é bastante profunda e este texto, evidentemente, não tem a pretensão de esgotá-lo ou resolvê-lo. Tratemos, portanto, de sondar o tema, mapeando questões fundamentais, para em seguida adentrarmos no terreno biográfico.

Quando uma lembrança é contada, escreveu o sociólogo e antropólogo brasileiro Renato Ortiz em A moderna tradição brasileira, “sabemos que a memória se atualiza sempre a partir de um ponto do presente” (ORTIZ, 1994, p. 78) e que, portanto, a memória “constrói o ‘real’, muito mais do que o resgata” (SEIXAS, 2004, p. 51). A partir de tal noção, pode-se refletir que o presente e suas demandas socialmente estruturadas é que determinam quais memórias serão evocadas no futuro para a validação da condição do momento em que foram construídas. E é neste ponto que o teatro e a biografia começam a se unir neste ensaio rumo ao tema da memória. “Os relatos de vida estão sempre contaminados pelas vivências posteriores ao fato relatado, e vêm carregados de um significado, de uma avaliação que se faz tendo como centro o momento da rememorização” (ORTIZ, 1994, p. 78).

A biografia constitui-se como um gênero por natureza híbrido, além de extremamente controverso. Desde a Antiguidade, verificam-se registros de vidas de personalidades notórias nas sociedades, como reis, imperadores e cientistas. Por dois mil anos aproximadamente, o gênero sofreu por parte de inúmeros autores, grande discriminação e uma distinção clara em relação à História, sendo visto mesmo como representante de uma categoria menor, compósita, problemática e, não raro, impossível de realizar-se plenamente. Isto por transitar tão sem cerimônia entre os ramos da ciência e das artes, valendo-se de técnicas literárias de construção narrativa, tanto quanto de metodologias de pesquisa e recursos científicos de áreas como a historiografia para a reconstituição de fatos.

O caráter de “impureza” verificado em tais procedimentos parece ter sido responsável, em grande medida, pelos olhos que maldisseram a biografia, legando certo mal-estar acadêmico sobre a estrutura narrativa que tanta aceitação possui entre seu público leitor. Apesar de bastante antigo e de ter percorrido fases ao longo da História (em que o ato de escrever vidas marcou-se por diferentes tipos de paradigmas reguladores – sobretudo do critério adotado sobre a escolha das personagens), o gênero biográfico tem ganhado maior atenção nas últimas décadas – sobretudo a partir dos anos 1980, com uma explosão editorial verificada em muitos países – num processo de revitalização; e seu gradativo aprofundamento acadêmico tem, inclusive, gerado trabalhos acerca da compreensão do estilo em si, e de reflexão sobre o fazer biográfico e sua relevância para uma análise mais aprofundada de determinada época histórica (a referida explosão editorial citada acima, ressalte-se, vive em aparente antagonismo com a amnésia individual de nosso tempo, como se verá melhor adiante).

Fala-se, com isso, em uma espécie de retorno da biografia, o que na realidade caracteriza certa imprecisão, dado o fato de que o gênero nunca deixou efetivamente de ser produzido e consumido. Pode-se pensar, contudo, que os “motivos de interesse atual pela biografia podem ser agrupados em dois eixos interligados: um primeiro que diz respeito aos movimentos da sociedade, e um segundo que se refere à evolução do conhecimento histórico, a partir das influências interdisciplinares. No primeiro eixo destaca-se (…) um reforço enorme do individualismo (…): cada vez mais o indivíduo tem seu espaço na sociedade e cada vez mais o homem se detém nele mesmo. Também tem seu papel o debate sobre a liberdade do indivíduo e sua relação com a sociedade, por meio da discussão das normas e valores, a partir das desilusões já muito discutidas da crise do marxismo e das utopias. Além de tudo isso, a mídia entretém hoje uma grande fome de imagens e de testemunhos, uma enorme curiosidade sobre a vida dos outros: quer-se ‘consumir a vida dos outros’, próximos e longínquos. Acho que o grande e recente boom da memória pode-se entender também nessa linha (próxima fundamentalmente à perda de identidade causada pela massificação, midiatização e pela dita globalização atuais)” (BORGES, 2004, p. 288 e 289, grifo do autor). Com isso, verifica-se um processo intenso de aceleração do tempo refletido na história e no dinamismo com que ela passa então a ser registrada, o que se mostra devastador.

Fatos veiculados pela mídia (e pelas ditas novas mídias) em tempo real, forjam a sensação de um eterno presente e criam, de certa forma, com tal aceleração, um novo modo de se fazer e se relacionar com a questão da documentação histórica – e, consequentemente, de sua preservação, já que a rapidez de nosso século rema na contramão da preservação e reintegração de vestígios.

Evidentemente, a construção textual nos mais diversos gêneros vê-se hoje, por conta disso, diante do desafio de readaptar-se a esta nova realidade. Interpretar uma vida é tarefa que, ademais, abrange problemas de extrema complexidade. Envolve diretamente elementos constituintes de nossas próprias vidas e de pessoas próximas a nós, defrontando-nos irreversivelmente com o processo psicanalítico da projeção, como explicou o historiador francês François Dosse em seu livro O desafio biográfico: escrever uma vida (2009). Bastante comum – e até necessária –, a identificação que se estabelece entre biógrafo e biografado integra o caráter obsessivo que envolve invariavelmente a produção de uma pesquisa similar.

Assumido de forma consciente e responsável, este mergulho resulta, sobretudo, em honestidade intelectual e ideológica por parte do autor que, na verdade, não pode produzir nada além de sua leitura pessoal daquela trajetória e conjunto de fatos. No moderno paradigma do gênero, aliás, explica Vavy Pacheco Borges (2004), o biógrafo encontra-se mesmo implicado na relação, sem julgamentos e, ao mesmo tempo, sem imparcialidade, mas buscando estabelecer as relações para a compreensão/aceitação/perdão da personagem. “A biografia histórica”, segundo Le Goff (1999) citado por Borges (2004, p. 297) “é uma das maneiras mais difíceis de se fazer história” (Jacques Le Goff, “Introdução”, In: São Luís: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 29).

“A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas (…)” (NORA, 1993, p. 9). Neste sentido: “O historiador que recolhe os testemunhos, documentos e vestígios e forma o arquivo, na maioria das vezes não presenciou os acontecimentos aos quais se volta. Ele é aquele que ouve, que se esforça para tirar do esquecimento a história. É ele ainda aquele que põe as diferentes versões e provas em conflito na discussão pública na busca de estabelecer uma versão verossímil – já que uma versão absolutamente verídica parece impraticável” (CAZARIM, 2009, p. 10).

É dentro desta lógica que venho trabalhando em meus livros do gênero biográfico, quase todos centrados em personalidades do teatro brasileiro, ou que de alguma maneira marcaram a história do nosso palco contemporâneo.

Teatro e memória

Remetendo-se à origem do termo cultura, chega-se à sua raiz latina colere, que dentre outras noções associa-se à ideia de colher e aqui se estabelece um curioso jogo de palavras, se pensarmos, ainda que ludicamente, no gesto da colheita como no da preservação de alguns atos culturais a serem interpretados e integrados, assim, à história de nossa sociedade. Como manifestação essencialmente artística e cultural, o teatro assume a função quase onírica de colher do inconsciente coletivo seus valores, questionamentos, dúvidas e paradigmas para coloca-los em vivo e constante debate social. Entretanto, uma particularidade o distingue de outras linguagens. Seu suporte é volátil. E se, ao passo que é realizado, vai-se fixando em maior ou menor medida nas memórias individuais de seus expectores, o mesmo não se pode dizer acerca da preservação do fenômeno em si, enquanto momento histórico, que se esvai inevitavelmente.

Documentar o instante torna-se de início tarefa frustrada e necessariamente resignada a contentar-se com certos tipos de documentação como o vídeo, o áudio, a fotografia, o diálogo escrito da peça, as narrativas e interpretações acerca das soluções dramatúrgicas encontradas pela direção, etc. Mas nunca o fenômenoem si. Entretanto, por este caráter efêmero, a escrita de tal manifestação cultural apresenta-se, como no caso da dança e de algumas outras artes cênicas, ainda mais específica e, por que não dizer, necessária? Somente o suporte textual de uma obra para teatro não chega à reconstrução das significações de determinados caminhos escolhidos por uma montagem, ou mesmo para a localização histórica de movimentos estéticos capazes de revelar, aludir, criticar, comentar, refletir, interpretar ou assimilar valores particulares de uma determinada época.

Neste sentido, a biografia dos principais agentes teatrais e culturais – bem como a discussão acerca dos critérios que são ou não adotados na seleção desses nomes – pode tornar-se importante ferramenta histórica, política, cultural e social para o registro de informações que, eventualmente, representem futuros documentos na escrita de um tempo. Por meio de reflexões desse âmbito, venho buscando caminhos teóricos capazes de sustentar o encaminhamento deste projeto, que tem por um de seus objetivos principais, o início de uma valorização do Brasil para com sua memória cultural, o que evidentemente não ignora os problemas profundamente arraigadas nos valores de nosso povo, e que freqüentemente materializam-se em obstáculos tais como o descaso social aludido num primeiro momento deste artigo.

Com tais reflexões, viso igualmente aplicar na prática o resultado de um debate efetivo, produzindo livros biográficos capazes de retomar o pensamento acerca de personalidades com atuações subestimadas em nosso cenário cultural, sobretudo, nas artes cênicas – área de maior interesse das minhas pesquisas mais recentes.

Dei início às minhas incursões no gênero biográfico com o livro-reportagem escrito em ocasião dos 30 anos de carreira da cantora, atriz e pianista Cida Moreira, em 2008 e que, embora não tenha ainda vindo a público, funcionou para mim particularmente como um gatilho, disparando a consciência do desejo de trabalhar com este tipo de linguagem e, portanto, revelando uma linha de trabalho e sistematizando uma vocação que de modo oblíquo sempre esteve presenteem mim. Otrabalho com a artista revelou-se fundamental no sentido da experimentação, o que prenunciou dúvidas, limites éticos, dificuldades e facilidades que eu viria a sentir em escritos futuros. Tendo acesso irrestrito não apenas à cantora e suas memórias pessoais, mas igualmente ao seu arquivo fotográfico e de imprensa, pude conciliar este olhar com o de cada entrevistado e procurei confrontar tudo isto com a bibliografia que paralelamente eu lia para criar um arcabouço teórico dos contextos sociais vividos pela personagem – e como eles igualmente ajudaram a significar sua atuação no tempo.

Foram ouvidos em entrevista amigos, parentes e personalidades artísticas como Chico Buarque, Elba Ramalho, José Possi Neto, Alcides Nogueira, Zélia Duncan, Marcio Aurelio, Zuza Homem de Mello, Julio Medaglia, Guilherme de Almeida Prado e diversos outros que, por meio de visões lançadas a partir do presente, não reconstituíram seus passados, mas reinterpretaram algumas vivências, impregnados dos novos conteúdos em que se encontravam transmutadas suas cabeças nos momentos de nossos encontros. Além dos nomes citados, estiveram presentes outros artistas como a atriz e diretora carioca Imara Reis, a qual, sem que eu soubesse, estava prestes a tornar-se o objeto de estudo do meu próximo trabalho – o primeiro neste gênero a ser publicado – e que lançaria mais uma das bases do processo reflexivo (em torno da questão da utilidade social de um livro intimamente ligado à memória) que tão intensamente vem rondando meus trabalhos nesta seara.

(Ressalte-se, para efeito metalinguístico e analítico, que tais ponderações acerca dos significados que cada um desses trabalhos teve para mim, constituem, por sua vez, igual produto de reflexão e recriações realizadas no presente momento em que tal registro se escreve e inscreve na mente de seu autor. Isto é, também ele em sua perspectiva de informar sobre os meandros da produção de memória, realiza o trabalho construtivo de maneira dialética e atribui valor – à distância – a feitos já ocorridos e não necessariamente vistos anteriormente com as mesmas perspectivas que hoje parecem claras para o autor, o qual redimensiona e, portanto, cria uma memória particular daquilo o que signifiquem os conceitos de memória aplicados à sua própria trajetória profissional).

Retomando as origens do que viemos a chamar de um “perfil-didático” de Imara Reis, parece-me necessário adentrarmos em alguns méritos que, justamente por suas acepções particulares, tornam-se universais na produção de uma memória que é definitivamente maior do que a simples lembrança/ compartilhamento/ conhecimento de feitos ou fatos histórico-artísticos, mas igualmente a consciência dos processos criativos e meandros psíquicos percorridos até determinados resultados e soluções – o que igualmente constitui um reservatório que revela valores intrínsecos de uma época, esteja esta em contraste ou continuação de outras, etc.

Por meio do relato da atriz, e partindo do desejo de criarmos uma biografia útil às novas gerações de hoje, pudemos a partir da reconstrução do contexto em que a sua se gestou, compreender algumas modificações sociais do pensamento teatral, sobretudo no que compreende as décadas de 1960 e os tempos atuais. A gradativa transição de signos recorrentes, como o foram para a década de 1970 os grupos teatrais, para outras lógicas de criação, mais ligadas a valores contemporâneos ou menos vinculadas a pensamentos anteriores, por exemplo (como o propalado individualismo da nossa sociedade tecnológica e digital), torna-se objeto de grande interesse para algumas correntes historiográficas.

Isto denota transformações sentidas individualmente, mas reveladoras de uma alteração social com origens profundas em aspectos políticos, científicos, econômicos do mundo inteiro. Refletidos na esfera da cultura, explicitam a maneira interdisciplinar com que o mundo opera, ligando entre si elementos de campos aparentemente inconciliáveis, e formando aquilo o que hoje em dia é muito facilmente reconhecido pelo termo rede.

Tais noções acerca das relações entre esses elementos, aliadas à melhor compreensão e à documentação de estudos realizados neste sentido constitui importante plataforma da nossa memória. Do mesmo modo, as diferenças entre as várias linguagens cênicas, oriundas do advento de determinadas tecnologias como o cinema e a televisão, são fenômenos recentes do ponto de vista histórico, ainda que para a juventude atual, tais aparatos – e suas conseqüentes distinções – constituam valores enraizados e já indispensáveis de nossa era. São, na realidade, índices importantes da rapidez da alteração no modo de vida das pessoas e aqui há que se lembrar que, também do ponto de vista fisiológico, o modo como nos comportamos tem íntima relação com os arquivamentos que fazemos em nossa memória, e vínculo direto com a velocidade com que mudanças sociais podem ser verificadas no cenário urbano principalmente.

Se adentro tal especificidade, devo dizer que o faço para tornar mais evidente a relação que pretendo estabelecer entre esses dois elementos, memória e comportamento.  Dessa forma, fica patente o ponto de vista segundo o qual nossas atitudes futuras possuem ligação direta com aquilo o que sabemos sobre a vida até então, isto é, em termos mais amplos, tudo o que lembramos. Ora, se esta relação fica implicada no âmbito da memória pessoal, em nada o mecanismo difere quando transposto ao caso da memória coletiva como fator primordial de compreensão do nosso presente e, portanto, de alteração do nosso futuro.

Existe, neste sentido, uma clara distinção entre memória coletiva e memória histórica, isto é, respectivamente aquela compartilhada por um grupo social, ainda que lembrada por ângulos variados; e a documentação histórica deixada sobre tal memória quando do desaparecimento do último membro deste grupo que detinha a lembrança do fenômeno vivido. De tal modo que muito do conhecimento que temos sobre a história de nosso país, por exemplo, depende de lembrarmos das lembranças de outrem. Trata-se da memória histórica, na qual este ensaio não pretendeu adentrar, senão à medida que evidencia sua relevância para nossa sociedade e, evidentemente, para nosso futuro enquanto povo e agentes sociais cidadãos.

Para lembrar o já citado depoimento de Maria Lucia Santaella no início deste texto, e considerada a dita leviandade com que lidamos historicamente com nosso passado, torna-se questão de grande responsabilidade esta da memória cultural que historiadores, jornalistas, professores e artistas de modo mais genérico vêm pondo em voga, com suas preocupações legítimas acerca do conhecimento que temos de nós mesmos enquanto nação, o que, é claro, tange de perto o mérito de nossa identidade nacional e a busca pela produção de vestígios para nossos descendentes. Somente tendo em vista a importância da construção e do fortalecimento desses valores, é que poderemos produzir também um olhar mais claro sobre nosso passado e a consciência sobretudo de ser ele apenas uma possibilidade de interpretação histórica, levando em conta igualmente as imbricações políticas, sociais e os interesses de classes envolvidos na produção desta memória, assunto no qual deixamos para nos aprofundar em oportunidade futura.

Thiago Sogayar Bechara é jornalista, poeta, biógrafo e ficcionista. Trabalhou em órgãos como a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. É autor dos livros “Impressões” (Poesias – Edição particular, 2002); “Encenações” (Poesias – Ed. Zouk, 2004 – Prefácio de Heródoto Barbeiro); “Imara Reis: Van Filosofia” (Perfil – Imprensa Oficial, 2010); “Luiz Carlos Paraná: O Boêmio do Leite” (Biografia – Edição particular, 2012); dentre outros.

Referências bibliográficas

BECHARA, Thiago Sogayar. Imara Reis: van filosofia. 1. ed. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.

BORGES, Vavy Pacheco. Desafios da memória e da biografia: Gabrielle Brune-Sieler, uma vida (1874-1940). In: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (orgs.) Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. 1. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 10. ed. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.

CAZARIM, Thiago. Esquecer, entender, enterrar: narrar as heteronomias dos inominados. Trabalho apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina “Memória, história e esquecimento”, do Mestrado em Filosofia da Universidade Federal de Goiás, ministrada pelo Prof. Dr. Adriano Correira, 1º semestre letivo de 2009.

DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. 1. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo – Edusp, 2009.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão… [et al.]. 5. Ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares, In: Projeto História. São Paulo: PUC, nº 10, p. 7-28, dezembro de 1993.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. 5. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

POZZER, Katia Maria Paim. A palavra de argila e a memória histórica. In: KARNAL, Leandro; NETO, José Alves de Freitas (orgs.). A escrita da memória: interpretações e análises documentais. 1. ed. São Paulo: Instituto Cultural Banco Santos, 2004.

SEIXAS, Jacy Alves de. Percursos de memórias em terras de história: problemáticas atuais. In: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (orgs.) Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. 1. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

Entrevistas

Antonio Candido de Mello e Souza

Imara dos Reis Ferreira (Imara Reis)

Maria Aparecida Guimarães Campiolo (Cida Moreira)

Maria Lucia Santaella Braga

Oswaldo Giacoia Junior

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