Foto: Marcelo Froner

Por Monique Franco

Atriz/Palhaça/Pesquisadora

 O Palhaço – essa figura que vem encantando o público há tanto tempo com sua função maior – a de fazer rir! Encanta também poetas, músicos, atores, pesquisadores, e artistas de todos os gêneros e lugares. Causando entre todos: discussões, questões, dúvidas e certezas.

O que é palhaço?        O que é ser palhaço?              Porque ser palhaço?

E na busca por essas respostas me deparei ao longo do estudo com os palhaços da cultura popular brasileira: Mateus, Bastião, Velhos do Pastoril Profano, Papangus, Marungos… Esses são alguns nomes dos palhaços filhos da nossa terra e criados a partir da necessidade do povo em brincar a sua maneira, de transformar sua realidade em festa e seus instrumentos de trabalho em ferramentas da arte.

O palhaço é um personagem antigo, que todos estão normalmente habituados a reconhecê-lo com sua máscara muito tradicional: o seu nariz vermelho saltitando do rosto. Porém, os personagens palhaços encontrados nessas festas populares não possuem, em sua maioria, o nariz vermelho, mas demonstram através de suas roupas diferentes ou nas maquiagens carregadas de carvão e sotaques engraçados, características nacionais, fazendo brincadeiras com nosso português, utilizando dos nossos ritmos musicais, abusando da nossa gestualidade, se inspirando em nossos hábitos cotidianos para mostrar suas intervenções com originalidade e sabedoria. São grandes artistas e possuem histórias curiosíssimas além de serem merecedores da nossa valorização como personagem cômico para uma referencia ao palhaço brasileiro de maneira geral

O Palhaço da Folia de Reis

(Foto Maria Lulu, Monique Franco)

Começo pelos palhaços da Folia de Rei que representa a história da viagem dos três Reis Magos à gruta de Belém onde nascera o Menino Jesus. A folia em marcha é composta pelo Mestre, Foliões, Três Reis Magos e de um a três Palhaços que são conhecidos por diferentes nomes: Bastião, Pai João, Marungo, Mocorongo, Alferes, Morengo, Mateus, Pastorinho, soldado de Herodes, entre outros. Há muitas histórias que explicam o surgimento deles. A mais comum é a de que eram soldados do Rei Herodes que, enciumado com o nascimento de Jesus, ordenara que o matassem. Porém os soldados, ao se depararem com a criança, converteram-se em seguidores e protetores de Jesus. Para não serem descobertos pelo Rei assassino, passaram a se disfarçar através de máscaras de palhaços, máscaras essas feitas pelos próprios foliões com matérias diversos, dependo do quanto podem gastar, usam desde cartolina até pele de animais.

Eles ocupam várias funções dentro da manifestação, mas o que me leva a inseri-lo no estudo do palhaço, não é somente o nome que carrega na brincadeira. Ele é responsável pela quebra do ritual e a inversão de algumas hierarquias, o que é algo encontrado no arquétipo do palhaço. Enquanto todos ao redor seguem o ritual com serenidade, o palhaço chega com versos e rimas trazendo um equilíbrio com sua brincadeira, como citado na fala do músico, ator e poeta Inimar dos Reis “(…) Acho que o momento mais interessante do ritual é a hora dos palhaços, pois é quando todo mundo entra na brincadeira. Depois que todos louvaram, rezaram, choraram, rememorizaram… Aí o palhaço pega tudo isso e revira transformando em brincadeira e festa. Ele tem essa “função de elevar a alma das pessoas.”.

E porque ser um palhaço de Folia de Reis? Por trás dos palhaços da Folia de Reis existe sempre uma promessa que deve ser cumprida em sete anos. Este é o principal motivo pelo qual eles participam do folguedo. Alguns deles diziam estar no último ano da promessa, porém como haviam “pego gosto pelo personagem”, preferiam continuar por mais sete anos reafirmando suas promessas.

O Mateus do Cavalo-Marinho

(Mateus Martelo – Foto Maria Lulu e Monique Franco)

 O Cavalo-Marinho é considerado por muitos pesquisadores uma das mais importantes manifestações populares e artísticas, pois reúne teatro, dança e poesia, e porque não dizer as artes plásticas na construção de suas máscaras. Caracteriza-se pela variedade de movimentos, loas, toadas, coreografias e improvisos. Tem em sua formação mais de 76 personagens chamadas também de figuras. Localiza-se mais na Zona da Mata de Pernambuco, sendo seus participantes na grande maioria de trabalhadores rurais. O enredo básico resume-se em torno do «baile » que o Capitão vai oferecer aos Santos Reis do Oriente. “A história do Cavalo-Marinho basicamente é a seguinte: os personagens Mateus e Bastião, que participam do inicio ao fim da brincadeira, são dois negros amigos, que dividem a mesma mulher, a Catirina, e estão à procura de emprego. Eles são contratados para tomar conta da festa. O espetáculo é coordenado pelo Capitão, chamado Marinho de quem se origina o nome do folguedo. O capitão chega a cavalo, daí a história prossegue até o momento final…” [1]. Difícil descrever em poucas linhas a complexidade dessa brincadeira e desses palhaços Mateus. Os negros Mateus e Bastião cuidam de toda a brincadeira do inicio ao fim e interagem o tempo todo com as figuras que entram e com o capitão que guia a festa, sempre com muitos versos, improvisos e piadas de duplo sentido. Carregam um matulão (espécie de mala ou trouxa feita de folha de bananeira trançada ou em alguns casos com saco de estopa) que representam tudo o que tem na vida, nas mãos trazem uma bexiga retirada do boi, que acompanha toda a brincadeira com batidas no mesmo ritmo da música e pintam o rosto todo de preto com carvão moído. São inúmeros os motivos de aprecia-los como palhaço apesar de seus brincadores nos dizerem que palhaço é palhaço e Mateus e Mateus, mas essas figuras se encontram na força desse mesmo arquétipo. Como um bom palhaço, um bom Mateus tem raciocínio rápido para graça e para tudo o que esta ao redor, sua riqueza ao interagir com todos no improviso dentro de uma festa viva e quem não para chegando a durar até 6 horas. Os Mateus trabalham com sensações viscerais. Não lhes cabe psicologismo. Manifestam-se a cima de tudo com o corpo. Têm uma relação visível com a terra. Caindo e se levantando do chão, se arrastando. Gostam e abusam das caretas. Que de fato impressionam e assustam. Servem não só para trazer graça, como também segundo tradições mais antigas para proteger o terreiro dos maus espíritos e dos maus olhados.

Sua presença é tão necessária para o folguedo acontecer que em muitos momentos podemos conferir-lhe a figura de “comando” da brincadeira. “Interessante, o responsável pelo riso no Reisado é também o responsável pela ordem” [2].

Porém sua forma de comandar é às avessas, típico do perfil encontrado nos palhaços, o que torna tudo ainda mais divertido.

“Eu tomo conto, mas não dou conta”.

O Velhor Pastoril Profano

(Velho Xaveco, foto acervo)

O Pastoril Profano ou Pastoril de Ponta de Rua, surgi através do Pastoril Religioso, realizado no Nordeste particularmente em Pernambuco, onde sua encenação se baseia na visita dos Pastores e dos reis-magos ao menino Jesus, sua representação consiste em dar vida aos presépios. O Pastoril ao longo dos séculos fez surgir uma ousada variante: O Pastoril Profano (ou de Jornada Cômica), representando o auto-religioso (da pastora sendo tentada pelo Diabo) de outra forma onde o Diabo, representado no religioso por um pastor, aqui se representa na figura do Velho, um palhaço, que através de piadas ambíguas e canções diverte e provoca o público com suas sensuais pastoras que participam instigando com aplausos, assobios ou vaias. O Velho é um personagem burlesco também conhecido como Bedegueba, em suas vestimentas traz, geralmente, paletós, coletes, chapéus de palhinha e outros elementos que remetem ao clássico palhaço de circo, assim como a maquiagem e o uso do nariz vermelho. Carrega nas mãos uma bengala com formato de cobra onde se apoiam algumas de suas piadas picantes às pastoras. Observa-se que no inicio o Velho tinha uma função quase como um bobo da corte, onde era o único que podia dizer verdades, provocar inimigos ou fazer galanteios em nome de alguém. Ainda hoje ele cria os versos, organiza as músicas, conta as anedotas, anima as dançarinas mais tímidas, reprime as espalhafatosas e, sobretudo, é o elo entre palco e público. O espetáculo é uma mescla de música, sensualidade, dança, humor e interpretação. Por estar envolvido com tantos elementos artísticos esta sempre se renovando com temas atuais, talvez essa seja uma das razões de seu formato ter sido adaptado para televisão.

O Velho Guerreiro não carrega esse nome a toa, o famoso Abelardo Chacrinha nascido em Recife levou para o Brasil inteiro o pastoril, mesmo não sendo de conhecimento de todos, seu famoso personagem se inspirou nas festas do nordeste, como ele mesmo dizia:

“Na televisão, nada se cria, tudo se copia”

E como “Quem não se comunica, se trumbica!” é interessante notar que toda a estrutura de seu programa basiava-se no Pastoril assim como as Chacretes representam em si as Pastorinhas. Charinha emplacou sucessos como “É mais embaixo” e “Bacurinha” ambas do Velho Faceta, um famoso Velho dos Pastoris. Os Velhos não apenas influenciaram Chacrinha como também os icones do povo “Os Trapalhões”, que em seu programa em 1981 exibe a música “A filha do seu Faceta” que tem como base a música “O casamento da filha de Seu Faceta”.

Informações que estão como um importante registro na memória popular.

Há tanto ainda o que dizer, estudar, aprofundar, investigar, enfim todas as formas de se falar sobre palhaço, sejam eles da onde for, a força desse arquétipo que desponta na ponta de um nariz vermelho ou por de trás de um rosto preto de carvão vem nos mostrar as necessidades, os defeitos, a poesia linda e grotesca refletida como num espelho grande que é o nosso país, o nosso mundo.  Atentamos neste nosso pensamento sobre o palhaço, pela valorização daqueles que estão à margem, sem discriminação, apenas despertando o olhar para algo que, se esta a margem é porque nos cerca, que nós possamos nos cercar de referencias daquilo que nos representa, somos nós todos Mateus, Velhos do Pastoril e porque não Adoniran Barbosa.

Que este seja apenas um ponto de partida para nós e para todos aqueles que se interessam pelo oficio do palhaço, a investigação de tantas possibilidades, dos mil lados por onde podemos caminhar para este estudo. Ainda há tanto o que fazer e de todas as descobertas que pude ter nessa busca, a maior de todos é que ainda há muito a se descobrir.


[1] BRINCANTES, Alfredo Borba/Leonardo Dantas/Manoel Constantino/Pedro Américo de Farias/Roberto Azoubel e Romildo Moreira; P. 26/27.

[2] REIS DO CONGO, Oswaldo Barroso, p. 96.

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