Texto de Jorge Louraço, tradutor,  retirado do programa do espetáculo “Ricardo III”, dirigido por Marcelo Lazaratto (2013/2014)

 

Esta adaptação simplifica um pouco original, privando o espectador da métrica e da sintaxe shakespereanas (muito difíceis, mas não impossíveis, de traduzir, e ainda mais difíceis de sustentar em palco), procurando que as falas sejam bastante imediatas. No lugar do inglês isabelino põe um português contemporâneo, que aqui e ali soará mais europeu, mas que para um europeu soará razoavelmente americano, espera-se.

Ricardo III é retratado como líder messiânico, um assassino, quase um serial killer, que não olha a meios para atingir os seus fins, mas que, contraditoriamente, é mais habilitado para ocupar o trono e governar o reino. Qual o equivalente de Ricardo III no Brasil?

Quem seria, hoje em dia, o candidato ao trono que, estando na linha de sucessão, precisasse liquidar os seus rivais e adversários? Golpes palacianos não faltam na história recente de todos os países, o espectador fará essa escolha ao assistir à tragédia.

Ao escolher onde fazer cortes, a adaptação preservou ao máximo as vozes femininas, as únicas que lutam verdadeiramente para definir o enredo anunciado da peça e os destinos das personagens, apostando na oposição entre magia sanguinária de Ricardo e as profecias impotentes das mulheres, como numa luta entre um trickster diabólico e um coro de cassandras.

O poder de sedução de Ricardo vem, em parte, da relação directa com o público, construída em cada uma das exposições dos seus planos malvados e do divertimento que é assistir á relação dos guiões antecipados pelo protagonista.As outras personagens são enganadas de tal modo que até o público sabe mais que elas. Mas num mundo cínico como o nosso, pouca surpresa há em ocultar planos mais ou menos maquiavélicos, e resulta pouco credível achar que este candidato a Rei é inocente. Pelo contrário , todos saberiam as intenções, ainda que elas se manifestassem apenas debaixo do pano. O horror da peça vem do facto de todos saberem oque vai acontecer – que mais tarde ou mais cedo vão perder a cabeça – mas não quando,  e de algumas acreditarem que talvez escapem. Não escapa ninguém.

Elenco:

Chico Carvalho

André Corrêa

Evas Carretero

Fernando Nitsch

Heitor Goldflus

Imara Reis

Isis Valente

Marcelo Moraes

Marcos Suchara

Maria Laura Nogueira

Mario Luiz

Rafael Losso

Renata Zhaneta

Mayra Magri

 

Direção: Marcelo Lazzaratto

Tradução e Adaptação: Jorge Louraço

Dir. de Produção: Erike Busoni e Alexandre Brazil

 

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