Pela primeira vez no Brasil, um grupo de artistas se propõe a encenar todas as peças de William Shakespeare (1564-1616), a proposta é levar aos palcos as 39 obras do escritor inglês nos próximos dez anos.  A primeira montagem é “Ricardo III”, com direção de Marcelo Lazzaratto, em cartaz até  11 de maio de 2014, no Teatro João Caetano, em São Paulo.

 

O PROJETO 39

 “A proposta [de montar as 39 peças em 10 anos] tem a vantagem de garantir a seus realizadores que, ao menos por uma década, jamais ficarão entediados, pois a variedade de temas e gêneros abrangida pela obra dramática de Shakespeare é tão grande que só surpreende que ela tenha sido realizada por um só homem. Acontece, porém, que esse homem foi um gênio, e que o teatro foi dele beneficiado; esse gênio, felizmente para nós, passou a vida tendo um grande caso de amor com a humanidade, e desse amor é que nasce a maior força de uma dramaturgia épica, na qual toda ação é inserida em seu contexto social e político, e é vivida por isso mesmo por personagens ricos de humanidade”  (Barbara Heliodora)

 

A OBRA

“Ricardo III” foi encenada pela primeira vez entre 1592 e 1593. O texto transpassa a história real da Inglaterra, no final da Guerra das Rosas, conflito sucessório pelo trono inglês ocorrido entre 1455 e 1485, a trama lança um olhar sobre os bastidores políticos no que se refere à imoralidade e à ambição para se chegar ao poder. Traições, complôs e outras perversidades recheiam a obra.

 Quando Eduardo IV, da casa York, conquista o reino inglês, e tudo aponta para um período de paz nos tempos de guerra, uma trama se adensa em sua própria família. Seu irmão, Ricardo III, inicia ardiloso plano para conquistar o lugar do rei.

“Ele é o agente de desequilíbrio de uma paz que não está bem fundamentada ou que foi fundamentada em um terreno não tão sólido. As ações dele deflagram a mesquinhez, as armações políticas, as puxadas de tapete, tudo aparece à tona. Nisto, descobrimos o quanto, internamente, sua família estava em conflito, o quanto as relações eram hipócritas, e o quanto, na superficialidade da paz, coisas nervosas estavam por dentro a ruir as estruturas”, comenta o diretor Marcelo Lazzaratto.

ENTREVISTAS

RC20 – Qual foi a linha de partida para sua encenação dessa montagem de Ricardo III?

MARCELO LAZARATTO – Por se tratar de uma peça com forte cunho político optei por encena-la sobre um tablado em forma de arena rompendo a moldura do palco italiano e avançando sobre as cadeiras da plateia. Essa opção além de enfatizar o jogo político aproxima o público dos acontecimentos e das reflexões contidas no texto de Shakespeare. Com isso acredito que o diálogo entre o erudito e o popular, próprio das características do autor, se fortalece e naturalmente se atualiza.

RC20 – Percebe-se na encenação o caráter épico, no seu ponto de vista, o que há de Brecht em Shakespeare e o que há de Shakespeare em Brecht?

MARCELO LAZARATTO – Brecht é um grande autor do século XX. E como todo grande autor reconhece a tradição e assume suas influências. E Shakespeare é sem dúvida uma grande influência na obra brechtiana.  O caráter épico por ele desenvolvido durante sua vida estão presentes em Shakespeare. O obra shakespeariana  é tida como universal porque em meio a tantas coisas não se prende à pureza dos gêneros. Em Ricardo III, por exemplo, há momentos épicos outros líricos e também dramáticos. E me parece que nas grandes peças de Brecht, como “Círculo de Giz Caucasiano”, “Mãe Coragem” e “A Alma Boa de Setsuan”, embora com ênfase no épico, encontramos elementos dos outros gêneros. Brecht e Shakespeare se utilizam da expressão teatral para tratar e discutir temas humanos complexos e profundos em diálogo direto com seu tempo. 

 

RC20 – A construção da sua personagem salta aos olhos e vem arrancando elogios calorosos dos espectadores, como foi seu processo de criação, as descobertas e a apropriação desta personagem?

CHICO CARVALHO – Obrigado pelo elogio! A construção desse trabalho é resultado de um processo coletivo e colaborativo, envolvendo o entendimento do conteúdo das cenas e a proposta de jogo entre nós, atores, sempre sob o olhar cuidadoso do diretor Marcelo Lazzaratto, que nos concedia total liberdade para experimentar maneiras de dar vida ao texto de Shakespeare. Logo de início senti-me bastante tranquilo e seguro, já que havia um interesse comum entre eu e o Lazzaratto em investigar a teatralidade contida nessa personagem, que se destaca por desenvolver diversas estratégias de persuasão em favor dos seus intentos. Encaramos o Ricardo III como uma espécie de coringa, alguém capaz de rearticular rapidamente seus gestos e ações, vestir e desvestir máscaras, adequando-se às circunstâncias que lhe são apresentadas de modo a cumprir com suas vontades, direcionadas, na sua totalidade, para o crime e a vingança. Nesse sentido, a criação do personagem está inteiramente calcada no prazer quase lúdico de se brincar de vilão, tomando atenção, claro, para não fugir da sinceridade do discurso humano latente na obra de Shakespeare, e sublinhando toda e qualquer contradição de caráter como um atributo da nossa condição. É importante dizer que a linguagem e a encenação do espetáculo priorizam a consciência de que estamos dentro de um teatro, compartilhando com o espectador a condução de uma história da qual ele é parte integrante e participativa, portanto, não escondemos o fato de estarmos sobre um tablado e interpretando, pelo contrário, fazemos desse recurso – amplamente sugerido pela própria dramaturgia do autor inglês – uma chave para estabelecer imageticamente a materialidade dos diversos cenários e circunstâncias que movem as personagens. A meu ver, não há forma mais prazerosa de se pisar no palco, usufruindo disso que ele oferece como princípio desde os tempos em que se descobriu essa forma de expressão: o ‘to play’, o jogo, a mentira deslavada que quando experienciada com entrega e paixão, torna-se viva e cativante. Sou inteiramente grato à todos os que participam dessa equipe, e que tornaram possível a concretização desse trabalho. É um privilégio cada vez mais raro no teatro brasileiro.

 

RC20 – A Duquesa de York participa de momentos de muita emoção do espetáculo, incluindo um embate com o próprio filho, como se dá, dentro do seu trabalho, a busca e a vivência dessa emoção em cena, dos ensaios às apresentações?

IMARA REIS – Na verdade é um acúmulo. A Duquesa, em cenas que não estão presentes no espetáculo, se refere ao filho sempre questionando as atitudes dele, sempre desconfiada de seus propósitos. Ela o nega como filho digno de seu afeto com base no que lhe custou tanto do ponto de vista fisiológico (gestação, parto etc..) quanto do da convivência entre eles que sempre foi muito crítica.  Há, nesta relação, algumas coisas que me parecem até extraordinárias, como por exemplo quando ela fala com a Rainha Elizabeth e diz que tem sobrevivido  graças à presença dos seus 2 filhos, espelhos exemplares  de seu digno, valoroso marido, sendo se refere à Ricardo como o espelho falso que reflete a própria vergonha dela.  

Durante a peça, ela vai observando a somatória das ações dele – observações estas que não estão presentes fisicamente no espetáculo pois a Rainha Margareth já cumpre esta função-  até explodir na cena final. Numa explosão contida de acordo com a orientação da direção. Por mim, não sei dizer isto com uma palavra mais sutil, ela descaralharia. Ou melhor, chegaria ao paroxismo.  É uma soma e, como já disse, um acúmulo de dados que chegam ao auge com o assassínio dos netos. Note-se que muito embora o Ricardo nunca execute os seus crimes, para ela é claro que foi ele, sempre ele, que os cometeu, que foi, na verdade, o sujeito de cada uma destas ações. 

Como processo de coxia, até chegar  ao momento das cenas, faço uma coisa que pode parecer maluquice, vou-me esvaziando de mim, e me colocando no aqui e agora total, para quando em cena reagir a cada um dos estímulos da cena em si. Menos a primeira em que, por um tempo, trabalho com a imaginação do que estaria acontecendo com ela momentos antes de entrar, como se trouxesse o sentimento de um grande corredor. 

Adoraria ter podido ensaiar esta peça por pelo menos uns 4 meses, ter-me aprofundado ainda mais na relação com este filho,  pois na minha imaginação ele tem muito dela,  da sombra dela.

 

RC20 – Além do atual Ricardo III, há dois outros espetaculos de Shakespeare, relativamente recentes, nos quais você trabalhou: em 2006 participou de outra versão de “Ricardo III” com direção de Roberto Lage e em 2007 de “Macbeth” com direção de Regina Galdino. O que você considera mais dificil e mais prazeroso em Shakespeare?

RENATA ZHANETA – Falar Shakespeare é um desafio enorme. E é exatamente esta dificuldade que se torna o maior prazer. Quanto mais a gente estuda, maior é o prazer da descoberta nesta obra inigualável.

 

FICHA TÉCNICA:

DE: William Shakespeare

TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO: Jorge Louraço

DIREÇÃO: Marcelo Lazzaratto

ELENCO: Chico Carvalho, Mayara Magri, André Corrêa, Evas Carretero, Fernando Nitsch, Heitor Goldflus, Imara Reis, Isis Valente, Marcelo Moraes, Marcos Suchara, Maria Laura Nogueira, Mario Luiz, Rafael Losso e Renata Zhaneta.

CENOGRAFIA: Kleber Montanheiro

ILUMINAÇÃO: Wagner Freire

FIGURINO: Marichilene Artisevskis

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Alexandre Brazil e Erike Busoni

 

SERVIÇO:

Centro Cultural São Paulo

Ultimas apresentações da temporada: Sexta(09),  sábado (10), às 20:30; domingo (11) às 19:30.  Ingr.: R$ 20; R$ 10 (meia-entrada).

Classificação Etária: 12 anos.

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