Por Marcos Suchara

Ato I – Impressões do Soldado Ferido 

“Pensamento e ação, deem-se as mãos”. ( Macbeth – Ato IV, cena 1)

 

O primeiro contato que tive com a obra de Shakespeare, foi através de um filme de Franco Zeffirelli, “Romeu e Julieta” (1968).  Eu era  adolescente e ensaiava minhas primeiras paixões na vida e no teatro. Vida e Teatro?  Será que são coisas diferentes ou duas faces da mesma lâmina? Aquela história de amor com um destino trágico conversava direto comigo.

Ao mesmo tempo eu já participava de um grupo de teatro e fui me interessando ainda mais pelas peças de Shakespeare. Nessa época li Otelo, Hamlet, Ricardo III, Macbeth… tantos personagens incríveis e contraditórios: o mouro de Veneza,  o príncipe  da Dinamarca, o assassino covarde, o amigo traidor, o coveiro sábio,  a rainha sonâmbula. Teias e tramas repletas de intrigas, desejos e disputa pelo poder. Questões que ampliavam cada vez mais as fronteiras da minha imaginação, davam substância ao meu pensar e me faziam sentir que o teatro era o melhor lugar que se poderia estar. Com meus companheiros e mestres, estudávamos alguns diálogos e treinávamos o ritmo, as diversas camadas e temperaturas de uma frase, a compreensão do texto e a palavra feito um chicote na ponta da língua.

A primeira oportunidade de trabalho profissional que tive no teatro, foi num teste para o elenco de Macbeth, dirigido por Ulisses Cruz. Eu tinha 21 anos e o Antônio Fagundes iria representar o general escocês. No dia do teste haviam pelo menos 200 atores candidatos. O teste foi rápido. Era preciso andar pelo palco e ler um trecho de alguma peça de Shakespeare. Acho que fiz um bom teste, só mais tarde soube que fui chamado, principalmente devido a minha aparência, cabelo loiro muito comprido e uma barba enorme, parecendo um verdadeiro escocês medieval. Sorte de principiante.

Semanas depois começaram os ensaios e lá estava eu, numa garagem na Mooca, em uma roda com Antônio Fagundes, Stênio Garcia, que representaria o Porteiro, e  Vera Fischer que faria a  Lady Macbeth, e todos os atores selecionados. A rotina de ensaios era intensa, cerca de 10 horas por dia, com exercícios físicos e vocais.  A dinâmica que Ulysses Cruz imprimia era aberta e participativa, exigindo do ator uma atitude criativa e crítica. Fazíamos seminários sobre o autor, seu tempo e sua obra. Os atores também podiam propor workshops, experimentando luz e imagens em espaços não convencionais, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre a obra, numa verdadeira instalação de arte. Foi num destes exercícios que Stênio propôs um experimento com o Rei Duncan, e me escolheu para representa-lo. Ele queria ver o Rei em sua intimidade, sem máscaras, distante dos olhares da corte. O “onde” escolhido foi o banheiro real. Além disso, Stênio pediu que eu relacionasse o arquétipo do Rei com algum animal ou pássaro. Após alguma conversa, chegamos na figura de um pombo.  Eu não deveria criar uma caricatura, mas apenas sentir a leveza e a divindade da ave, para que o assassinato cometido por Macbeth se tornasse ainda mais terrível. Um assassinato contra a natureza. Lembro que Stênio estava muito influenciado pela experiência que tivera com as tribos da Floresta Amazônica, nas filmagens de “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), de Hector Babenco, onde ele incorporara um Pajé.  Era admirável o processo de aproximação deste artista com o texto, que dava livre passagem aos sentimentos, revirando a palavra ao avesso e explorando seus infinitos sentidos. A apresentação da cena ao grupo foi muito bem recebida. O grande aprendizado foi perceber o olhar atento de Stênio Garcia, voltado, não só para as camadas psicológicas da personagem, mas também para os campos sensoriais e físicos. Ali eu começava a perceber que as personagens são movidas por desejos e conflitos que não estão somente no plano da razão, mas também no inconsciente do corpo e das percepções sensoriais.

Foram 4 meses de processo de ensaio onde não ganhávamos nada. A produção não tinha dinheiro e receberíamos, no futuro, um percentual da bilheteria. Tempos difíceis, onde o dinheiro enviado pelo meu pai para ajudar no aluguel foi de fundamental importância.

Durante o processo, fui escolhido para representar, entre outros personagens, o Soldado Ferido, que narra ao Rei Duncan as agruras dos combates e a bravura de Macbeth na batalha.

Faltava uma semana para a estreia e ainda não havia o ator que faria o papel de Duncan. Já estávamos ensaiando no teatro quando apareceu Paulo Goulart e num golpe de mestre conquistou a todos com sua vibração, talento e voz. E que voz! Agora a peça podia ter início, tínhamos um Rei. Que momento especial para um jovem ator em sua primeira peça de teatro profissional poder contracenar com o grande Paulo Goulart. E fazendo Shakespeare! Foi mágico, e essas impressões estarão gravadas em mim para sempre. Paulo nos ensinava exercícios vocais e sempre conversávamos sobre a cena, num diálogo construtivo que nunca se esgotava, com a pura intenção de abrir novos caminhos para a representação do dia seguinte. Porque em Shakespeare as possibilidades de nuances na interpretação são infinitas. Talvez por isso as personagens de Shakespeare são o sonho de muitos atores. Hamlet contém em si a humanidade inteira.

Macbeth estreou em Campinas e teve enorme repercussão. A fila para comprar os ingressos era imensa, chegamos a fazer três sessões por dia e finalmente recebemos um pagamento. E um excelente pagamento! Fizemos uma temporada de muito sucesso e viajamos Brasil afora, conhecendo teatros, cidades e gentes. O exercício da temporada longa, da repetição, da disciplina que o ator deve ter foi desde cedo um campo vivo de aprendizado.

Observar Antônio Fagundes na rotina do teatro, o modo como ele se comunica com o público e o profundo compromisso com a arte teatral é, para mim, até hoje, fonte e referência.

Lá estava eu, fazendo Shakespeare, viajando e ainda recebendo um bom dinheiro! Só que as peças, cedo ou tarde, terminam. E a realidade transborda.

Nesta época, eu nem imaginava que minha história com Shakespeare estava apenas começando…

Marcos Suchara, 43, é ator e professor de teatro.  Atuou em várias peças de Shakespeare, entre elas: Péricles, Principe de Tiro com Cleyde Yáconis; Rei Lear com Paulo Autran; Hamlet com Marco Ricca; esses com direção de Ulysses Cruz. Ricardo III com Marco Ricca e direção de Jô Soares; Macbeth, no qual fez o papel título e direção de Regina Galdino; Hamlet com Thiago Lacerda e direção de Ron Daniels. Atualmente atua em Ricardo III no papel do Duque de Buckinghan ao lado de Chico Carvalho no papel título e direção de Marcelo Lazaratto.

Crédito – Foto – Ricardo III – Everton Pinheiro e Ana Gois

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