Por Daniel Gonzalez

             O termo teatro pós-dramático foi inicialmente cunhado por Richard Schechner  em uma tentativa de esclarecer o que ele presenciava nas apresentações dos primeiros happenings. Schechner não via mais no happening algo que se identificasse com o conhecido teatro tradicional, ligado ao drama na sua essência. Quando Schechner definiu o prefixo “pós” ao teatro dramático, literalmente queria expressar um teatro que ultrapassou por completo a linha do drama, mesmo que este drama ainda falido continuasse a existir.

O teórico alemão Hans-Thies Lehmann apropriou-se do termo em 1999 na tentativa   de discorrer sobre as mudanças significativas no teatro, que o mesmo via desde os anos 80. Lehmann afirma que apenas o fato de recebermos signos teatrais que distanciam-se, ou diferem-se por completo dos signos convencionais do teatro das últimas décadas, justifica a utilização de um novo termo para cercar essas novas experiências das artes cênicas, e contribuir para uma nova compreensão conceitual dessas experiências.

Esse estranhamento todo em relação ao teatro pós-dramático, tanto por parte do grande público, como também dos estudantes de teatro, vem da mudança de paradigma na semiologia que este teatro carrega, e é sim, diferenciado do teatro tradicional. O termo teatro tradicional é usado aqui sem pudores, pois como o próprio Lehmann alerta, “o teatro é sempre pensado tacitamente como teatro do drama”(p.25).

O teatro pós-dramático vai distanciar-se dos recursos e dos conceitos balizadores do teatro dramático, como a imitação, a representação, a ação dramática, os personagens, e sobretudo, propõe uma des-hierarquização dos recursos teatrais. O primado do texto, desaparece por completo, e todos os recursos não estão mais em uma função de comunicar, ou informar, qualquer coisa a seu receptor, tomam o lugar de compartilhar, de comungar, desautomatizando a percepção do espectador e ao mesmo tempo provocando novas experiências ao atuante.

Essa quebra de paradigma semiológico do teatro pós-dramático vai proporcionar uma estética que substitui a forma concludente, da tensão no decurso e resolução ao final da trama, do teatro dramático e introduz em seu lugar um percepção aberta, fragmentada e simultânea dos signos, que não mais estão na denotação do mesmo, e sim, proporcionando diversas leituras sem que se precise optar por uma.

O que se precisa esclarecer ainda mais sobre o teatro pós-dramático é que todas essas mudanças, que por sinal começaram bem antes dos anos 80, não constituem apenas uma opção formal na estética teatral contemporânea, eles fazem parte de um pensamento artístico mais complexo que deseja relacionar-se com nosso tempo e com nossas formas de relação. Esse pensamento artístico vai por veredas diferentes do largo caminho pós-iluminista da racionalidade, que a arte moderna apropriou-se e apoiou-se em muito esforço. O excesso de representação em nossas relações (sociais, políticas, artísticas, religiosas) foi o maior trunfo do capitalismo para transformar tudo o que conhecemos em uma relação de consumo e principalmente de reconhecibilidade.

Ao vermos um quadro e imediatamente não reconhecermos nada no mesmo, automaticamente buscamos uma informação, que nos explique sobre o que trata o quadro. Nada pode nos suspender, nos deixar em dúvida prazerosa na era do capitalismo.  Ou seja, além do imediatismo, buscamos nos aliviar do estranhamento em relação ao não reconhecível. Sempre aconselho a leitura do livro de Lehmann (2007), começando pelo final, no subitem “Estética do Risco¨ no qual o autor deseja um teatro que encare de frente, e com energia, os tabus de forma direta, sem a necessidade de uma representação. E o autor ainda indaga “e se essa racionalização anestesiar até mesmo os reflexos humanos urgentemente necessários?”(p.426). O teatro pós-dramático vem proporcionar o lúdico, as imagens, o prazer na aporia, violentamente ou não. E nasce acima de tudo, de um desejo de fruição, uma relação horizontal e de comunhão, entre público e atuante, e de significantes e possíveis significados.

Nos corredores acadêmicos, frequentemente alguns alunos me abordam e dizem ”quero falar com você depois; quero fazer alguma coisa pós-dramática” e eu sempre retruco “não fez ainda por quê?”. Muitos ainda pensam que o teatro pós-dramático está relacionado à uma técnica específica, ou segue certos dogmas de encenação. O teatro pós-dramático é fruto de um pensamento artístico contemporâneo, não é apenas uma fusão de linguagens. É um teatro disposto a enfrentar, assumindo o completo risco dessa ação, a “época da incredulidade” como define Lyotard, e fugindo das utopias, das explicações metafísicas ou ontológicas, se agarra na realidade factual e a manipula artisticamente de forma que se preserve ainda nas artes,  fruição.

Daniel Gonzalez é ator e diretor teatral, professor na Faculdade Paulista de Artes, integrante da Cia Les Commediens Tropicales.

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