Há alguns meses fui convidado para ministrar uma oficina de dramaturgia para iniciantes em uma escola inaugurada ano passado em São Paulo. Já havia ministrado (e participado como aluno) de várias oficinas de texto teatral e, em todas elas, constatei um fenômeno interessante: a diminuição no número de participantes a partir do momento em que eles eram convidados a escrever. Este dado sempre me despertou curiosidade e talvez tenha sido ele, acima de outros, o fator determinante para que eu aceitasse o convite.

Encontrei uma turma formada por adultos, alguns com carreiras constituídas em áreas distantes dos palcos, como economia e informática. Pessoas inteligentes, informadas, curiosas e muito propensas a experimentar uma realidade, ou talvez uma prática, diferente daquela que vivenciavam no cotidiano. Assim que dei a largada à aula inaugural do curso, apresentei aos alunos meu primeiro e mais sincero pedido: por favor, não desistam quando chegar a hora de escrever. Não é fácil para vocês, que estão começando, como também não é fácil para quem já dedicou anos de vida a esta tarefa às vezes inglória e quase sempre suada de extrair algum sinal de vida da tela em branco. Ninguém está aqui para julgar ou ser julgado, disse a eles. Estamos aqui para construir alguma coisa juntos, que, neste momento, nem vocês, nem eu, sabemos ainda o que é. O que podemos, se isso facilitar as coisas, acrescentei, é combinar que não haverá certo ou errado no nosso desafio. Talvez uma maneira melhor de dizer alguma coisa, talvez um diálogo mais preciso, talvez uma emoção mais delicada – mas nada que se submeta aos conceitos de permitido e proibido.

Para dotar minhas palavras de alguma relevância, li um dos meus trechos prediletos do livro Uma Anatomia do Drama, de Martin Esslin: “Na prática teatral, a única prova real de uma peça será a de funcionar ou não em um palco, como teatro. Como Brecht gostava de dizer, é só na hora de comer que se pode julgar um pudim: o que não significa, no entanto, que as regras da culinária não sejam de maior importância”. Acreditei que, ao menos, a oficina começava a partir de bases democráticas.

Funcionou por um bom tempo. Os textos foram surgindo, tímidos e curtos no início, mais longos e ousados depois, os estilos e preferências foram aos poucos se delineando…assim como as obsessões. Por fim, a turma começou a diminuir. Compromissos profissionais, viagens intransferíveis e até problemas no casamento obrigaram alguns dos alunos a voltar para a realidade da qual, por algumas horas semanais, eles haviam tirado folga. Uma noite, quando faltava apenas uma aula para o término da oficina, caminhei com um dos alunos, que estava entre os dois mais aplicados e assíduos da classe, até a estação do metrô. Enquanto esperávamos pelo trem, ele disse que não sabia se estava escrevendo melhor – e nem se o que estava fazendo era realmente teatro. Eu disse que sim, que ele estava escrevendo melhor e que estava escrevendo teatro. “Mas não sei se isso é o mais importante”, ele acrescentou. “O que eu sei é que estou vendo a vida de forma diferente. Eu olho as pessoas de um outro jeito, presto mais atenção nas coisas e vejo tantos detalhes que antes me escapavam. Não sei se a dramaturgia me valeu para o teatro, mas sei que valeu para a vida”.

Eu esperava que, ao fim do curso, ele me entregasse, em papel impresso, uma pequena peça como trabalho de conclusão. O que ele me entregou, em palavras, foi muito mais valioso.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo. Escreveu, entre outras, as peças A Coleira de Bóris, Abre as Asas Sobre Nós, Andaime e Aberdeen – Um Possível Kurt Cobain.

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